quarta-feira, 13 de abril de 2016

Horror (de Alma Welt)


meu horror à vida
só comparável
ao meu amor pela vida
meu ódio ao ódio
e à selvagem
crueldade da vida
à entredevoração cruel
e insaciável dos animais
e dos homens: horror, horror.
meu amor pela beleza da vida...

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Prece (de Alma Welt)


    1. Bom Deus, peço que existas
      e conquanto seja eu pobre
      me livra dos comunistas!
      Quanta à feia solidão,
      não m'a devolvas, te peço,
      que já vi e gostei não.
      Me faz viver mais feliz,
      não muito, só um pouquinho
      se a dor for mal-de-raiz.
      Nunca mais viver sem dono
      como o pobre cão de mim
      que me acolhi no abandono...
      Me permita mais um verso,
      que escrevendo me sinto
      criando teu Universo.
      Me deixa morrer dormindo
      mas sem aquele mau sonho:
      de eternamente eu partindo...
      E me deixa ter clareza
      de que quando eu for embora
      tudo aqui fique "beleza".
      Que eu mesma não faça falta,
      e que a turma se reúna
      e a refeição seja lauta.
      Mas de um amigo à mesa
      me deixa saber do brinde
      para do Amor ter certeza...

    quarta-feira, 19 de junho de 2013

    Os Dias (de Alma Welt)


     Naqueles dias andar nas ruas era novo
    e cada um era um povo caminhando
    agitando faixas e palavras de ordem
    mesmo que de mãos abanando
    não havia mais pobreza enquanto caminhava
    o indivíduo irmanado, e agora sim
    individuado
    de recuperado brio e juventude
    porque o dragão titubeava, tremia
    E podia cair finalmente...

    terça-feira, 26 de junho de 2012

    A Tentação - Afresco de Michelangelo na Capela Sistina
     
    Trovinhas da Alma (de Alma Welt) 


    Tentadoras nós somos
    Por uma dupla vertente:
    A da Eva dos pomos,
    E Lilith da serpente.

    Livrai-me, Deus querido
    Dessa tentação profunda
    De querer tirar partido
    Da beleza desta bunda.

    E se muito já errei,
    Dai-me terceira opção
    Às duas que enumerei:
    A do puro coração.

    ................
    Que muito já atentei
    Aquele que é meu irmão

    sábado, 24 de dezembro de 2011

    A Roda (de Alma Welt)


    A Roda - de Matisse

    A Roda (de Alma Welt)

    Demo-nos as mãos por uns minutos
    e uma grande roda façamos
    plenos da sagrada alegria!
    Quê de melhor alguém tem a propor?
    Demo-nos as mãos e rodemos bailando e cantando
    Como se fosse este o dia da libertação,
    Que na verdade bem o pode ser,
    Que cada dia é, se o quisermos...

    Uma grande roda crescente, uma imensa roda
    Cujo som de nossas vozes se alteie como uma onda
    E que irmanados estejamos como num princípio ideal
    Que imaginávamos na Terra dos Homens
    Ouvindo estórias de avós e mães
    Que queriam sua prole unida, e não dispersa...

    Haja festa! Haja risos e brindes e canções,
    Algumas picarescas, daqueles mais jocosos...
    E que riamos, riamos o riso da inocência
    Que é o riso que a Terra lembra
    e quer de nós!...

    domingo, 30 de outubro de 2011

    Gengibre branco (de Alma Welt)

    Hoje te escrevi
    um bilhete
    de um só fôlego
    Não me respondeste
    Missiva já antiga
    lenta
    como o burrinho
    de um frei Timóteo
    talvez chegarei tarde
    demais...

    Não irei direto a ti
    Rondarei prudente
    pensando em nós
    quão belos fomos
    na aurora
    de nossas dúbias cotovias
    rouxinóis e beijos...

    Estou voltando à tua casa
    ao teu quintal
    para procurar
    um gengibre branco
    mais velho
    para me apaixonar de novo
    por ti

    Estou voltando
    para nós
    sem resposta
    sem provas
    palpáveis
    de que bem-me-queres
    com o mesmo fogo
    de outrora

    Ah! esta casa
    que conheço tão bem
    como a palma
    desta mão
    que dou à palma...

    Estou voltando à tua casa
    ao teu quintal
    para procurar
    um gengibre branco
    mais velho

    Para me apaixonar de novo
    por ti...

    terça-feira, 10 de agosto de 2010

    Manhã orvalhada (de Lucia para Alma Welt )


    Alma Welt, manhã orvalhada -óleo s/tela de Guilherme de Faria,
    110x140cm, Coleção GLATT, São Paulo, Brasil



    Manhã orvalhada

    (Para a amada Alma)


    Nesta manhã orvalhada
    caminhei pela campina como outrora
    quando tudo parecia mais autêntico e vivo
    pois a Alma estava entre nós
    e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
    Ainda ouvi sua respiração arfante
    não tanto pelo andadura
    como pelas emoções de seu olhar
    sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
    que me passavam despercebidos.
    Senti novamente seu perfume
    de mulher jovem inconcebivelmente linda
    que só por isso já nos comovia
    tanto quanto aos peões
    que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
    e tiravam o chapéu
    ao seu riso cristalino.

    Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
    que agora nos falta!
    Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas
    entre a paisagem e nosso alento
    que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
    em teu vôo a um tempo gracioso e sobranceiro,
    de branca garça pampiana
    guria de cabelos flamejantes, de pele alva
    de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
    Esta foi, além de teus poemas
    tua prenda maior mas tua desgraça,
    pois também os maus te viram
    e cobiçaram...
    Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada,
    quando rindo de alegria te afastavas de súbito
    virando-te para mim
    para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina
    por puro prazer de viver.
    Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã!
    Que poema posso eu te escrever
    senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
    cheia de secretos encantos
    que no entanto prodigalizavas?
    Quanto te desnudavas em tua generosidade,
    pois bem sabias que o olhar do povo,
    deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
    como não seria com nenhuma outra prenda!
    Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses)
    não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino
    e fruir de tua pele de seda de impossível brancura
    sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua
    e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro?
    (Ai! Na grande cidade também foste amada,
    mas também violada
    em tua comovente vulnerabilidade,
    criatura exótica perdida no caos.)

    Ah! Não poder nunca defender-te,
    preservar-te do mal e dos maus,
    cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal
    e nunca mais deixar-te ir-se!...

    Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
    e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão,
    senti teu beijo em meus lábios,
    o hálito fresco da pradaria
    e soube que continuas por aqui.

    E chorei consolada...


    (Lucia Welt)
    28/05/2008

    segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

    Olhar, olhares (de Alma Welt)

    Eleito entre milhares
    nosso olhar quer ver o mundo
    e já pouco sabe de si.
    Ser a súmula de olhares
    apreendidos
    é a norma
    herança do saber
    cultura e forma

    Pouco de nós mesmos há
    no verso camuflado
    mal e mal
    pelo vago temperamento
    e arroubo
    do momento

    Entretanto
    reconhecidos somos
    pelas nossas escolhas...
    ba! quem fomos?
    tristes folhas
    de um desconhecido outono
    de pouca tolerância
    Ao vento fluido
    qualquer descuido
    é ânsia
    ou abandono
    dor fatal


    E sempre
    descuidamos
    no final


    17/05/2006

    domingo, 15 de novembro de 2009

    Cogito (de Alma Welt)

    Ofuscados pela luz,
    não podemos enfrentar
    seu brilho incrível.
    Muito menos encarar
    o sol que nos protege
    e oprime.
    Quão frágeis somos
    sobre a Terra e seus caprichos
    afinal benevolentes
    se nos inteiramos
    de nossa insignificância...


    Abelhas e formigas
    têm, visivelmente
    o mesmo significado
    que nós homens
    perante a Vida e a Morte.
    E no entanto...
    porque cogitamos
    e nos debatemos
    na mente inconformada?

    Tanta poesia
    no papel
    desperdiçada!...


    18/07/2006

    segunda-feira, 9 de novembro de 2009

    Volta à casa paterna (de Alma Welt)


    Capa do folheto com desenho de Guilherme de Faria



    Volto à casa paterna, comovida,
    onde a alma e o coração nasceram,
    aparentemente, nesta vida,
    conquanto ecos que os precederam
    julgo escutar ao fundo, estarrecida.

    Olho as paredes, lombadas nas estantes,
    retratos e poeira tão constantes
    e um piano mudo expectante
    de mãos habilidosas já ausentes

    Quanta tristeza, que noite persistente
    atravessa o casarão demente!...
    murmúrios e o correr das lágrimas
    do pranto e o ranger de dentes...

    Contudo, na casa impregnada
    uma carga de ausência renitente
    que o coração martela ao pé da escada...

    no hall, no labirinto,corredores,
    jogo eterno da alma em seus temores,
    buscando o leito de dossel materno,
    o berço ao lado, o cortinado branco
    ondulando ao vento como por encanto...

    Quero deitar de novo neste berço
    quero dormir ouvindo o acalanto
    e retornar ao mundo do sonhar primeiro,
    afugentando o sono do espinheiro
    pra ter de novo a casa que mereço
    e ouvir de novo aquele canto...

    no hall, no labirinto,corredores,
    jogo eterno da alma em seus temores,
    buscando o leito de dossel materno,
    o berço ao lado, o cortinado branco
    ondulando ao vento como por encanto...

    21/11/2005

    domingo, 1 de novembro de 2009

    Poema perplexo (de Alma Welt)

    O melhor de mim é a certeza
    de minha perplexidade inominável
    diante da vida erigida em religião
    de mistérios e de assombros.

    E o amor... por quase tudo
    menos pelas moscas,
    que essas seriam mesmo do diabo,
    como mosquitos e algumas larvas

    Mas o sol, e o seu pôr,
    o sol...
    só pode ser Deus,
    se Deus houvesse.

    Ando pela campina,
    ainda a colher flores,
    privilégio que veio a mim
    de outras eras
    E ao imaginar-me e mesmo avistar-me
    com longínquo olho me comovo comigo
    e abano a cabeça. conformada.
    Romântica ? Talvez...
    por pura estética...


    17/08/2006

    quinta-feira, 30 de julho de 2009

    O mestre (de Alma Welt)

    As coisas não ocorridas
    atravancam o caminho
    Livre-se do ogro
    do malogro
    Assim dizia um mestre
    que inventei
    e que se dedicava a fazer nada
    com solene inflexão
    nos detalhes
    Eu ria e ria
    com meu mestre
    que era a parte enternecida
    do meu sonho
    detestava não encontrar
    o café pronto
    e tinha pouca tolerância
    com os tolos

    Bah! Como dançávamos e ríamos
    nos dias de verão no meu jardim
    e nas noites também
    antes de saber que ele me amava
    e nisso consistia o seu saber,
    que no mais era um amável
    charlatão

    Não precisei mandá-lo embora
    o meu mestre
    Ele se foi em noite conturbada
    em que eu batia forte na janela
    e não me atreveria a detê-lo
    e menos seguí-lo
    na tempestade
    pois ele mesmo me ensinara
    o comodismo
    a não intervir na correnteza:
    o sábio fluxo das coisas
    que simplesmente são.

    No fundo
    não perdi meu tempo
    acalentando meu bizarro mestre
    (que todos os mestres bem o são)
    já que não podemos mesmo ensinar
    e menos aprender
    pois não sabemos ainda
    o que é a Morte
    e o misterioso porquê
    disto tudo
    enquanto a chuva cai
    e a relva brota...


    Nota
    Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)

    sexta-feira, 17 de julho de 2009

    Eternidade (de Alma Welt)

    Haverá outra vida?
    Não há como ter certeza...
    Toda fé não é senão ingenuidade,
    doce candura das almas.
    Suspeito e temo que a morte seja o Nada
    e por isso apavorante.
    Todavia creio na perenidade da Poesia,
    da palavra do poeta,
    na imortalidade entre os homens.
    Esta só me basta... enquanto idéia.
    Que mais se pode querer?
    É pouco restar entre os homens
    como seu igual
    e como intérprete
    de suas alegrias e dores,
    como seu bardo?
    Não, por certo não é pouco...
    E vós que almejais a vida eterna
    deveríeis começar por plantar robustas árvores
    que lancem poderosas raízes
    e frutifiquem...
    Como os bons poetas
    e os artistas em geral
    o fazem
    cheios de fé...


    15/01/2007


    Nota
    Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)

    terça-feira, 14 de julho de 2009

    O ninho (de Alma Welt)

    Com o mesmo e esmerado instinto
    com que o pássaro faz seu ninho,
    o homem constrói a sua casa.
    Homem e ave: o mesmo impulso
    de aconchego e proteção...
    O mesmo anátema os atingiu?
    Parirás em dor? Chorarás teus ovos roubados?
    E no entanto... quanta arte!
    Lançados na terra e no ar
    homem e pássaro
    não temos pouso
    senão a leste do Éden
    cercados por este paraíso
    bálsamo ao olhar
    e inatingível...



    (sem data)

    segunda-feira, 22 de junho de 2009

    Poema triste* (de Alma Welt)

    Não, a maior tragédia
    não é a morte
    mas a perda da felicidade.
    A irremediável, a incontornável perda
    da felicidade que um dia existiu
    e que se considerava perene.

    Ah! Os dias de cantos, danças e carícias!
    Os dias de terno langor
    no leito ou na varanda de um jardim florido
    quando as crianças correm por ali
    e o ser amado nos acena
    sorrindo dentre elas...

    Não, a tragédia não é a pura solidão, inata,
    adquirida ao nascer
    e que nos acompanhará até o final.
    É termos um dia acreditado vencê-la
    ou termos por algum tempo conseguido superá-la,
    enganá-la, a ela, a solidão esmagadora,
    e escondê-la tão bem de nós mesmos.
    E ela, afinal... ter vencido.

    Não, a tragédia não é
    termos sido infelizes
    em nossa vidas.
    É termos perdido a felicidade
    um dia conquistada
    e não podermos mais viver
    dentro de nós,
    de nossa própria pele,
    dentro de nossos próprios sonhos
    ora perdidos...



    ______________________________________________________


    Nota

    *Pungente poema recém-encontrado na arca da Alma, e que talvez explique o final trágico da musa do pampa.
    O original, num pedaço de papel de embrulho, não tinha título, que foi improvisado por mim. (Lucia Welt)

    quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

    Aos jovens poetas (de Alma Welt)

    Aos jovens poetas (de Alma Welt)

    Não digas, ó poeta: “eu sou um rio”,
    Ou pior ainda “eu sou o mar”.
    Não porque isto seja desvairio,
    Não vês que isso não é senão vulgar?

    Não digas “meu abraço abarca o mundo”
    Ou ainda “a sintaxe do amor...”
    Isso dói, é feio, quase imundo,
    Ou no mínimo tem cheiro de bolor.

    Não digas “despi-me dos meus gestos”
    Mas, sim, sem pudores tira a roupa,
    Pois que a poesia tem momentos indigestos
    Mas aos falsos e hipócritas não poupa.

    Sim, porque o que jogas no papel
    Ao teu rosto voltará, como no vento
    A cuspida que deste assim ao léu,
    Pois a letra grava o vão momento.

    E assim, se for legítimo o tempero
    Não precisas mais te preocupar
    Pois não foram colhidos no pomar
    Do vizinho o pomo e o desespero.

    (sem data)

    terça-feira, 8 de abril de 2008

    À derradeira amante ( para Andrea, de Alma Welt )

    Foi na grande cidade,
    Andrea
    que te encontrei
    sem jamais ver-te,
    que te quero ver.
    Estás longe,
    estás só como eu,
    aqui no casarão
    entre as minhas flores,
    as árvores do meu pomar,
    e a pradaria.

    Minha macieira, meu bosque,
    minhas crianças
    adoradas, Andrea,
    não mais logram
    abrandar esta solidão
    que é tua.

    És a última, querida,
    a saberes de mim
    com intimidade e doçura,
    com ardor também
    e fome,
    como nenhuma outra
    jamais.

    Dou-me a ti, toma-me, sou tua,
    que te escolhi
    (em princípio
    nem eu mesma sei ao certo
    o porquê...) e me amaste
    poderosamente

    Devora-me, guria,
    virtualmente que seja,
    para que eu viva
    mais intensamente
    que nunca!

    Que eu me projete
    na tua doce alma
    como nestas árvores,
    flores, campos
    e mais perdure!

    Que assim vivi neste meu pampa...



    09/01/2006

    segunda-feira, 7 de abril de 2008

    Poente branco (de Alma Welt)

    Ao deitar-se o sol sobre o meu Pampa
    No suave leito das coxilhas
    Demora o meu olhar descendo a rampa,
    Retorna ao berço destas maravilhas,
    Eterna moradia da esperança
    A casa onde fui... e sou criança.

    Para aqui regresso no crepúsculo,
    Intencionada a sentar-me na varanda,
    Ladeada por um lindo ser minúsculo:
    A Branquinha que ao meu lado anda,
    Retornada ao lar em sua alma branda.

    Assim é que descubro o elo franco,
    Maior, entre mim e ti, amor,
    O signo do meu corpo assim tão branco,
    Repousado junto a ti... e a se pôr.

    AMANTES ( poema de Alma Welt)

    CARTA DA LUCIA À ANDREA ( à guisa de Prólogo)

    Querida Andréa

    Espero que estejas bem. Quanto a mim, continuo organizando os papéis da Alma, sua obra abundante e surpreendente. Acabo de descobrir mais um poema da irmãzinha, que me parece muito belo ( embora eu não entenda de poesia) e em que descobri mais um acróstico do teu nome, Andrea, nos primeiros versos. Parece-me, por alguns indícios(anotações à margem, com esferogáfica) que ela, por alguma razão não o remeteu a ti. Estas coisas me surpreendem, e encantam, por perceber a intensidade do amor de minha irmã. Eu sempre a invejei (no bom sentido) por ela viver assim, como uma diva, uma personagem de ópera, ou heroína de um romance, que afinal, era o dela própria. Nunca poderemos compreender os poetas totalmente, embora suas criações nos digam respeito, ou mesmo nos elevem. A ardência prodigiosa de suas paixões nos tiram o fôlego. Em sua pele, morreríamos no primeiro dia, exaustos, quero dizer, nós simples mortais. Pois a sua dor, junto com seu êxtase, Andrea, é quase insuportável, e me faz chorar pela minha irmãzinha, poeta que um dia o mundo conhecerá em sua grandeza, para sonhar, e...sofrer com ela, que precisava do mundo como sua platéia, legítimo direito dos artista universais, como ela parece ser. Remeto-lhe agora esse poema, que é teu. Quem sabe se ainda encontrarei outros. Alma parece inesgotável em cada filão seu...


    Amantes

    (Alma Welt)

    Amantes, amantes, eis o jogo,
    no amplo espaço de minha mente
    durante o atemporal percurso do poema,
    repositório de gozos e segredos
    e as doces lembranças do meu leito
    amarfanhado pelos corpos e suores.

    Por aqui passaram meus amores
    inigualáveis e ávidos de mim,
    loucos de minha carne, de meu hálito,
    amantes sábias de mim, de meus delírios,
    roubadas que me foram pelo Tempo.

    (Tu sabes meu amor, já me conheces
    sem jamais ver-me face a face
    Conheces o meu cheiro
    e a cor rosada das aréolas e mucosas
    Que te entrego pela voz
    inaudível da exímia palavra
    plena de sugestão
    pelo puro prazer de violar o espaço
    e dar-me, dar-me, a ti
    aonde quer que estejas solitária).

    Mares, mares, eu os conheço
    do espaço energético e exato de um retângulo
    nas noites profundas de orgasmos
    em que me encontro no fundo
    de mim mesma.

    O que pode, ó deuses, comparar-se
    à aventura de dar-se, de entregar-se
    ao outro, à outra, sem contrato
    sem peias, sem rebuços?
    Sem barganhas, sem aquele
    pudor dos falsos, dos hipócritas
    talvez mesmo dos covardes?

    Outrora fui, por bruto violada
    e amei, sim, amei-o em pleno estupro
    com toda a inocência de minha alma,
    malgrado o susto, a dor
    e o gozo inesperado.

    Amantes, amantes, plenos de imaginação...
    Eu me entrego na esperança de perder-me
    no coração do outro, em sua carne assim rompendo
    as amarras do ser, suas fronteiras, seus liames
    da condenação atávica do ser.
    Onde o limite? Não quero. Para além
    é o que busco, a imensa pradaria do outro,
    predestinado, fronteiriço da alma ou não,
    um ser de amor e mar, leito de uma noite,
    quiçá de uma outra vida, para além das fronteiras
    que o homem falsamente impõe.

    Não quero regras, só
    a feroz senha de doçura,
    o milagre dos humores e seivas
    que se mesclam,
    dos corpos que se fundem
    amalgamados.

    Esta noite terei todas as noites.
    Depois posso morrer.

    Aqui, no casarão as trevas sobem,
    cessam as luzes, descansam candeeiros.
    É a hora mágica dos sonhos acordados,
    dos suspiros e mãos hábeis.
    A noite dos amantes aqui tem a sua guarida:
    receberei a sua imagem recriada por mim
    enquanto me penetro
    com minhas próprias mãos, meus dedos
    minhas receitas, delícias escabrosas,
    projetadas de mim, privilégio da mente,
    pequenas dores voluptuosas,
    lembranças cultivadas
    de um estupro ideal...

    Tudo é ficção.
    Tudo é real?
    Qual a fronteira? Não há.
    Somos seres de projeção, seres da noite,
    feitos para o sonho ardente dos amantes.

    Esta noite receberei o meu amor!
    Quem poderá deter-nos
    em nossos arroubos, mentes desatadas
    fontes borbulhantes de desejo?

    Nunca soube o real...
    Esta noite receberei os meus amores,
    bacante de uma orgia, em honra
    de mim mesma!



    17/12/2005

    Meu amor quer claridade (de Alma Welt)

    Meu amor quer claridade
    extensas pradarias
    jardins de sonho
    e flores palpáveis
    meu amor quer tudo
    meus delírios
    meus pés firmes
    plantados
    na terra do seu seio
    minhas garras
    quer meus beijos
    minha sede
    ardência de lume
    nas noites
    do meu pampa
    luz bruxuleante
    nos corredores
    soturnos
    do casarão adormecido
    crepitar de velas
    de antigos serões
    candelabros de sonho
    taças, vinhos
    e a doce embriaguez
    de encantos
    e celebrações
    meu amor quer tudo
    tão doce
    feroz em sua paixão
    ardente, sôfrega
    ninfeta e mulher plena
    algo fatal
    em sua ancas, lábios
    na concha quase impúbere
    e glabra
    entre as virilhas
    seio de alabastro
    o meu amor
    pertence às sagas
    mal sabe
    o seu mistério
    de outras lendas
    arena de candura
    criação, obra dileta
    de terna fantasia

    meu amor
    pequena deusa
    Psiqué
    nascida mortal
    não sabe
    o seu poder


    15/06/2005

    quarta-feira, 5 de março de 2008

    Resvala a noite (de Alma Welt)

    Este poema simples e extremamente lírico foi musicado lindamente pelo Gulherme de Faria que o canta ele mesmo e também criou as harmonias e o arranjo que são executados pelo músico Luiz Ramos, do Estúdio Harmony (na rua Augusta) como orquestra de cordas como acompanhamento ao sintetizador. O projeto, no entanto, a ser gravado, é para voz de soprano lírico, como música de câmara.

    Resvala
    a noite
    sobre este dia
    glorioso
    nada pode
    apagá-lo
    meu amor
    voltou
    quero gritar de alegria
    o meu amor
    nas altas horas
    do dia
    da noite
    do dia


    Ergue-se o dia
    Em manhã de primavera
    ninguém pode colher
    as flores do porvir
    Somente eu e o meu amor nesta manhã
    e o ramalhete
    das horas
    do dia
    da noite...

    quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

    Orsília (de Alma Welt)

    (Este notável e estranho poema foi escrito por Alma quando ela tinha apenas 16 anos, já denotando o seu caráter romântico e um tanto esotérico, dentro da grande tradição do Romantismo Alemão de nossos ancestrais paternos. (Lucia Welt)


    ORSILIA

    Numa floresta gótica
    Jaz, erma e terrível, a lembrança de Orsilia
    A mágica luz dos entre-arcos, que nenhum vento distorce
    Pousa nalgum lugar de seu corpo, um reflexo de dor.

    Suas tranças germinaram, recompondo a dourada face
    Nenhuma oscilação afugenta o espírito em seu retorno,
    Mas toda a atmosfera submete-se a uma paz ditada pela morte.

    O silêncio canta uma balada ancestral.
    Nem a névoa estagnada dos pântanos
    Nem o petrificado gesto do íbis
    Se dispersa ante tão suave angústia.

    Orsilia vagueia seu amor translúcido
    Seu triste amor, agora isento de recordações
    ......................................................................
    à margem de uma estrada, um vento sofre nas ramadas.


    ______________________________________

    quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

    Meu perfil (cordel deAlma Welt)

    Acabo de encontrar este perfil da Alma, perdido na montanha de seus textos, dentro da arca de sua obra inédita. Este curioso poema narrativo auto-biográfico, que ela classificou de "cordel", me faz crer que ela pensava em abrir seu blog e que não teve tempo. Infelizmente também o poema parece ter ficado inacabado, interrompido... (Lucia Welt)



    Em berço de terra pura
    Pois à margem de uma estrada,
    Conquanto de mãe apeada
    De uma bela viatura,

    Meu pai colheu-me com a mão
    Sem luvas de cirurgião
    (que sendo médico e artista
    escolheu ser pianista)

    E num parto de perigo
    Arrancou o seu cadarço
    Pra amarrar o meu umbigo
    Cortado com um estilhaço

    De garrafa de Calvados
    Que quebrou com um trompaço
    Ficando os cordões molhados,
    E também rompendo o laço

    Com a bela Açoriana
    Que nunca logrou reter-me
    Por mais que tivesse gana
    De ao seu ventre devolver-me.

    Então nesta bela estância
    Dos meus avós vinhateiros
    Vivi minha bela infância
    E meus sonhos verdadeiros

    Que eram de viver solta
    Junto de companheiros
    Que estavam à minha volta:
    Os meus deuses derradeiros,

    E o mais belo querubim
    Que era Rodo, irmão amado
    A quem Ananque, a do Fado
    Quis fazer-me amar assim.

    Meu pai, a quem chamo Vati
    Tomou-me então pra criar
    Destinada a ser um Vate,
    Pagã, sem jamais pecar.

    Para isso resgatou-me
    Dos braços da Açoriana
    Que me levaria à Santana
    E da charrete tirou-me

    Pra não me deixar batizar
    E nem mesmo ouvir falar
    De “pecado original”
    Ou outro pecado que tal.

    E assim vivi neste prado
    No jardim, no casarão,
    E no meu pomar sagrado
    Da árvore do coração,

    Sim, a ARA, macieira
    Que gravei com o canivete
    Do meu querido pivete
    E sua flecha certeira...

    E no pomar-paraíso
    Sob a árvore sagrada
    Fui um dia encontrada
    Nuazinha e sem juízo

    Por minha mãe furibunda
    Que puxando-me os cabelos
    E fustigando-me a bunda
    Me interrompeu os desvelos...

    Pois não estava sozinha
    Mas com meu irmãozinho
    Sua mão na minha xaninha
    E a minha no seu pintinho.

    Ai! Me lembro do arrastão,
    Por uma fúria arrastada
    A cobrir-me com a mão
    Que assim fui obrigada.

    Bah! pobres destes maninhos
    Puxados pelos cabelos
    A cobrir-nos, tão sem pelos,
    As vergonhas que não tínhamos...


    .......................

    terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

    DOZE CANÇÕES DA LUA (de Alma Welt)

    Leitos da Lua (de Alma Welt)

    (13)

    Pelos pagos planos do meu pampa
    Ia a lua vagando em vaga via,
    Feitora das marés em sua rampa

    Mas, ai! aí eu ia ao seu apelo,
    Levitada de meu leito de guria
    Para banhar-me à luz do seu desvelo

    E, pura, pelos prados do prazer
    Eu pulava por planura e pouco chão,
    Já prestes a pelar pra a lua ver...

    E foi assim que minha mãe, a Açoriana,
    Depois de procurar-me, não em vão,
    Notou-me nua em nívea névoa, ó lua hermana!


    (sem data)


    Notas da editora

    Por curiosidade revelarei aqui dois tercetos que finalizariam o poema, mas que a Alma riscou, excluiu, pela sua extraordinária sabedoria técnica que sabia sempre quando um poema estava terminado, evitando o demasiado circunstancial:

    "E me pegando pelo punho me puxou
    Arrastando-me de volta ao casarão,
    Brutalmente no banco me botou,

    Onde, tímida, tremendo, torturada,
    Fui resgatada por guri, sim, o irmão!
    Que lívida levou-me e... fui amada."



    Com esse curioso e encantador poema, cheio de aliterações, dou por terminada a minha pesquisa e alinhavo do que convencionei chamar Canções da Lua, da Alma. Naturalmente é possível que outros poemas da grande poetisa se encaixem nessa denominação ou gênero, e que eu ainda os descubra na incrível montanha de textos de minha irmã, em que estou embrenhada. Mas por ora, com estes doze podemos, eu e o querido João Roquer (da Banda Risses) pensar em musicar e criar um CD, para o qual já encomendei a capa e o encarte ao mestre Guilherme de Faria, que os amou. (Lucia Welt)


    _______________________________________________

    Pelos Caminhos da Noite (de Alma Welt)

    12

    Pelos caminhos da noite
    que já conheço tão bem
    sem que tema nem me afoite
    caminho como ninguém

    O poema é meu guia
    e a lua farol brilhante
    Meu corpo é a cotovia
    que por sua luz se adiante

    Ah! minha lua faroleira
    que giras sobre este mar
    que só tem sua fronteira
    se mil porteiras fechar

    Navego por entre coxilhas
    como as ondas desse mar
    Ah! encantadas ilhas
    do meu doido navegar!

    Lua, lua me carregue
    já começo a me alçar
    Estou nua estou entregue
    ao teu fio de enredar

    és a aranha da noite
    em tua teia estelar...


    _________________________________


    A Barca da lua
    (dos Sonetos Pampianos da Alma)

    (11)

    Lua do meu pampa, remadora
    Que me chamas nas noites de verão
    Pela minha janela tentadora
    Por onde fujo descendo até o chão

    Pelos galhos da minha amoreira
    Que plantei, criança muito esperta
    Pois já tramava escapar de minha coberta
    E vagar pelo jardim qual feiticeira

    Co'a varinha acendendo os pirilampos,
    Brincando com os sonhos e a magia
    Que sempre habitaram nestes campos.

    Lua, promete, me arrebate
    Ao olho fatal que, sei, me espia,
    E conduze-me em teu barco ao Grande Vate!


    11/01/2007


    Nota da editora


    A rigor este lindo soneto recém-encontrado pertence aos sonetos Pampianos da Alma, mas pela temática resolvi publicá-lo aqui embora haja nos Pampianos muitos outros também com a temática da lua. (Lucia Welt)

    domingo, 3 de fevereiro de 2008

    Lua de seresta (de Alma Welt)

    (10)

    Seresteira irmã da Alma
    que me fazes acordar
    após um sono sem calma
    que permitiu te escutar,

    Lua, lua, só me resta
    ir vagando ao teu encontro
    para ouvir tua seresta
    a que respondi de pronto.

    Meu balcão é a varanda
    sobre teu jardim lunado
    recendendo à lavanda
    do jasmineiro acordado

    E logo assisto ao desfile
    dos luzeiros encantados
    dos pirilampos do Chile,
    que assim os quis rimados...

    E então me ponho nua
    pois não posso me esconder
    do olhar arco-de-pua
    com que verrumas meu ser.

    Depois deitada entre as flores
    afasto meus brancos membros
    para que vejas as cores
    dos dias de teus setembros.

    Mas, ai! comicha-me a gruta
    um travesso vagalume
    e fujo como uma truta
    pro meu leito de costume.

    Lua nova, aqui me deixes,
    não me faças te buscar!
    Teus cantos de rio e mar
    alvoroçaram-me os peixes...


    (sem data)

    Vigílias pampeiras (de Alma Welt)

    (9)
    Quando cai a lua cheia
    sobre alfombras de coxilhas
    um canto de plena veia
    percorre o Pampa por milhas

    E vemos os fogos no chão
    com as chaleiras que chiam
    fervendo pro chimarrão
    dos "gáltchos" que silenciam

    para ouvir cantos de lua
    ao som de foles gaudérios
    com estórias de mistérios
    de uma estranha prenda nua

    que galopa em plena noite
    com a ruiva cabeleira
    como o rastro de um açoite
    nessa vigília pampeira.

    Já sabem usteds quem é
    essa china impenitente
    que chega a sorrir até
    ouvindo o que diz a gente?

    Voem cantos, chie o mate...
    Olhar, comece a vigia!
    Esta noite cante o vate
    as façanhas da guria!

    Que galopa em plena noite
    com a ruiva cabeleira
    como rastros de um açoite
    na grande noite pampeira.

    (sem data)

    Nota da editora

    Nos últimos tempos recrudeceu o hábito da Alma de sair tarde da noite cavalgando nua e em pelo a sua égua Miranda pelas pradarias até longe do casarão. Isso aumentou a sua lenda entre os peões aqui na nossa região.
    Uma noite, Matilde, nossa cosinheira e sua ex-babá, que percebeu o que acontecia, conseguiu impedi-la amarrando-a na cama. Ela achava que Alma estava louca. Confesso que não a desamarrei e fiquei à sua cabeceira acalentando-a, até que cessou de se debater e adormeceu.

    Teia lunar (de Alma Welt)

    (8)

    Pequena lua impassível
    que de noite vens me olhar
    com teu brilho impossível
    de a ti mesma revelar

    Que me dizes, o que quer
    teu branco olho lunar?
    Teu silêncio me requer
    desfazer-me em meu tear?

    Levanto-me branca e nua
    no meu sonho recorrente
    e vou andar pela rua
    como uma pobre demente

    Até retornar ao leito
    vaga, sonada e lenta
    trazendo uma flor no peito,
    na boca um sabor de menta.

    Sob os lençóis macios
    me deito já desfrutada
    como esses seres vadios
    de tua louca noitada

    E durmo com minhas mãos
    que desfizeram a teia,
    repousando entre os vãos
    que o teu olhar incendeia.


    (sem data)

    sábado, 2 de fevereiro de 2008

    A alucinada ( das Canções da Lua, de Alma Welt)

    (7)
    Pelas margens do meu rio
    irei nas noites de lua
    entre o sonho e o delírio
    por esta espécie de rua

    que me leva a este nada
    perfeito, noturno e claro
    onde encontrarei a amada
    e seu canto muito raro.

    Lua, lua aí vem ela
    envolta em tua aura
    azulada que até gela
    mas que tão logo restaura

    a sua feição bonita
    em risos de alucinada
    que entre cantares grita
    o seu amor, pela estrada

    que me leva a esta amada
    perfeita, noturna e clara...


    (sem data)

    Lua cigana (de Alma Welt)

    (6)
    Minha cigana vem vindo
    no seu carroção da noite
    buscar-me para um pernoite
    que já me vejo fruindo.

    Lua, lua cigana
    começo a ouvir o teu canto
    e ainda não sei o quanto
    estás perto desta "hermana".

    Voarei se me quiseres
    nas asas do teu luar
    por suas trilhas no ar
    em campos de mal-me-queres.

    E quando enfim começar
    o fandango de rabecas
    tuas ciganas sapecas
    me verão também bailar.

    (sem data)

    sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

    Canção da noite de lua (de Alma Welt)

    Mais uma "Canção de Lua" descoberta entre a imensa produção da Alma, ainda inédita, encontrada em sua arca... (Lucia Welt)

    (5)

    Pela campina anoitada
    minha lua está a vagar
    lançando apelos na estrada.

    Te quero, lua, e irei
    contigo esta noite deitar,
    que já não tenho mais lei.

    Me porei nua nos prados
    pra me causares marés,
    pra me lunar dos dois lados.

    Branca como uma fada
    me deitarei aos teus pés,
    a ti serei consagrada.

    E quando fores de dia
    pro teu refúgio secreto,
    me farei tua cotovia:

    Voltarei cantando ao lar
    contar ao irmão dileto
    que longe fui namorar...

    (sem data)

    quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

    Canção da bela lunada (de Alma Welt)

    Mais uma Canção de Lua encontrada entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

    (4)

    Lua noturna amazona,
    por quem me tomas minha lua?
    Não sou chinoca de zona
    por me veres assim nua.

    Teimas em me desnudar
    Ah! Como somos tão brancas!
    Com o pálido nenúfar
    a boiar-nos entre as ancas.

    Se me deito como em parto
    é porque sou tua amante.
    Se permaneço em meu quarto
    é por seres inconstante.

    Lua, lua me acolha!
    Não perguntes de onde veio
    quem se entrega ao teu enleio.
    Sou bela... não tive escolha.

    Esta noite irei ao prado
    e te abrirei o meu seio
    para que seja encontrado
    lunado, frio e alheio


    Lua, lua me acolha!
    Não perguntes de onde veio
    quem se entrega ao teu enleio...


    (sem data)

    Lua de "ménage" (de Alma Welt )

    Mais uma "Canção da Lua" que encontrei entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

    (3)

    Pelos prados de coxilhas
    me verás cantar à lua
    qual fosse senda diurna
    do meu jardim, pelas trilhas.

    Que podes senão seguir-me
    com teu fino violão
    e tentares perseguir-me
    na minha bela canção?

    Seremos um sob a lua,
    assim me poderás ter
    se me provares saber
    acompanhar, serei tua

    Até deixarei tocar-me
    sob seus claros lumes
    para à lua fazer charme
    e provocar-lhe ciúmes

    ........................

    Seremos um sob a lua
    assim me poderás ter
    se me provares saber
    acompanhar, serei tua...



    (sem data)


    Nota da editora:

    O fato de de Alma ter repetido a penúltima quadra no final, como um refrão, confirma, a meu ver, a sua visão deste poema como uma canção para ser musicada mesmo. Musical como ela era, é uma lástima que ela não tenha tido tempo em sua vida para musicar seus próprios poemas e cantá-los. Mas onde estiver, creio que ficará satisfeita com as melodia que o jovem João Roquer, e a bela Lika, ambos da Banda Risses, estão colocando em seus poemas. João já prometeu musicar todas as "Canções da Lua" da Alma que lhe inspirarem melodias e harmonias.

    O acordo (de Alma Welt)

    Encontrei, maravilhada, uma série característica de poemas da Alma dispersos no meio de sua vasta obra na arca de nosso sótão, que alinhavados formam o que passarei a chamar "Canções da Lua". O querido João Roquer, da banda Risses, já prometeu musicá-los.(Lucia Welt)

    (2)
    O acordo (de Alma Welt)

    Por estes prados de mar
    Me avistaste num clarão
    Em meu louco navegar
    Me olhavas do teu balcão

    Não te cansas de chamar
    Qual se ainda fosse tua
    E não vagasse no ar
    E não estivesse nua

    Mas o quê sabes de mim
    Na minha eterna aventura?
    Vou atrás da minha lua
    Nada podes com algo assim

    Lembra do acordo, não jura,
    Feito no nosso jardim...


    08/11/2006

    terça-feira, 29 de janeiro de 2008

    Lua de Yupanqui (de Alma Welt)

    Surpresa e encantada encontrei este lindo poema inédito da Alma em sua arca, no nosso sótão. Já me parece uma canção, pois canta desde já pedindo ser musicada. Conclamo aqui o querido João Roquer (da banda Risses) a fazê-lo. João, porás melodia nesta canção? Tu a cantarás? Te peço... (Lucia Welt)

    Também a ti cantarei
    pois cantar, lua, não manque
    quem te pudera cantar
    depois do "gáltcho" Yupanqui*
    quem te soubera encontrar
    em meio a névoas de sangue
    de tanto tanto buscar
    em caminhadas de mangue,
    as tuas sendas no ar

    Lua dos amantes cegos
    e dos tais impenitentes
    que não te podem mirar,
    Dos incautos, dos valentes
    que se dispõem a sonhar

    Lua lua aqui me vês
    perdida como uma rês
    que a si se quis apartar

    Leva-me em tua barca
    não me deixe aqui restar
    esquecida de tua arca
    de par em par, no afã
    de teu lento naufragar,

    Que sou pequena, sou órfã,
    também já não tenho lar...

    (Alma Welt)

    Nota de editora

    *Yupanqui- Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, célebre, da província de Tucumán, autor de inúmeras canções imortais como a celebrada Luna Tucumana, que se tornou praticamente folklórica, uma das canções pampianas mais amadas pelos argentinos. Alma adorava essa música e a cantava lindamente acompanhando-se ao violão. A voz de Alma era belíssima, indescritível, e sua pronúncia castelhana, perfeita. Ainda a ouço na memória, e choro ao me lembrar... (Lucia Welt)

    Para ouvir a canção Luna Tucumana, em belíssima interpretação:

    http://br.youtube.com/watch?v=WXdoZyciqNQ

    sábado, 26 de janeiro de 2008

    A meu pai, Werner Friedrich Welt (de Alma Welt)

    Vati*,
    não morri contigo
    embora a dor
    quase me tenha solapado.

    Estavas inteiro em mim, pai,
    já me tinhas
    ensinado quase tudo.
    Deixaste-me teus livros
    e algumas boas telas...
    E a música, então, Vati?
    Estava tudo lá...
    Os três grandes Bês
    como dizias:
    Bach, Beethoven e Brahms
    e todo o panteão de deuses
    grandes e pequenos.

    Mas, pai, não me tinhas
    falado da morte,
    isso esqueceste.

    Não quiseste
    ou não tiveste tempo
    de me falares desses mortos,
    juntos, talvez, à alguma lápide,
    no campo, ouvindo os pássaros
    ou confidencias do vento
    nos ciprestes.
    Teria sido tão belo e triste...

    Vati, não me preparaste
    para a Morte
    e agora tenho medo.
    O mundo que me deste
    é belo demais
    e temo perdê-lo,
    mais que nunca.

    Vê, Vati, estou pintando
    e escrevendo ainda
    os versos, pai, os versos
    que me incitavas
    para escândalo
    ou preocupação
    da Mutter.
    Persisto, pois,
    na nossa loucura, Vati,
    naquele pacto que fiz nos teus joelhos
    e que só nos dois sabemos.
    Lanço agora, mais que nunca
    nossa beleza querida
    na tela
    e no papel
    e estou, Vati, portanto
    cumprindo o nosso pacto.

    Podes dormir, pois
    sossegado,
    velho médico, estancieiro,
    sonhador,
    pai desta Alma aqui,
    apaixonada por homens,
    e mulheres
    mas que ainda é tua
    criatura
    e criadora orgulhosa
    de nós, Vati.

    Podes dormir naquele prado
    onde não fomos juntos,
    onde não ouvi os pássaros
    e não sussurramos
    rente às lápides.

    Quiseste mostrar-me só a alegria
    da beleza
    e suspeitavas que a morte
    não fazia parte dela,
    agora vejo.

    Tanto
    que a Mutter tentou
    nos prevenir
    com sua catilinária
    e aquele indefectível
    “vale de lágrimas”!...

    Mas, Vati, de onde estás,
    ouves An Freude
    a Ode à Alegria?
    Há um reino de sombras, pai,
    atravessado por aquele rio Letes
    do esquecimento?

    Bebeste de sua água?
    Esqueceste-me, Vati?

    ______________________________


    Nota de editora

    A paixão de Alma por nosso pai nos comovia, a mim e a Rodo
    (menos à Solange, que tinha ciúmes). Aliás tudo na Alma era tão intenso que nos paralisava, ou nos tirava o fôlego. Por isso ela viveu a sua curta vida como se fossem cem anos de vivências. (Lucia Welt)

    quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

    Narcísicas (de Alma Welt)

    NARCÍSICAS
    (Poemas Sáficos de Alma Welt)



    1

    Cerco meu dia
    de flores e canções
    e aquele zelo
    da hetaera ancestral
    que vejo em mim
    Banho-me enfim
    na espuma que me envolve
    e olhando-me no espelho
    me desvelo
    enquanto o cristal
    só me devolve
    aquilo
    que a mim mesma
    me revelo


    2

    levanta ó meu amor
    o teu sorriso
    deste leito sobre o dia
    e suas sombras
    percorre com teu passo
    estas alfombras
    e como eu
    ( se assim posso dizer )
    reina o que é teu
    com todo o teu poder
    Se tens a veleidade
    da renúncia
    lembra então de Lear
    que a razão, o reino
    e o coração, perdeu


    3

    Como me alegro com o dia
    que amanhece
    e mesmo quando à tarde
    ele se funde
    pois que sou grata
    pelas dádivas que fruo
    o meu destino é belo
    e mais ainda
    porque assim o reconheço
    ou o construo



    4

    A minha amiga é bela
    e se desvela
    de tal maneira
    em torno desta vela
    que sou, já que a atraio
    sem querer
    que temo até mesmo
    que se queime
    em mim
    que estou ardendo
    (não me pejo)
    só de pensar também
    o seu desejo


    5

    Vem, minha amada
    e deita sobre mim
    mirando teus mamilos
    sobre os meus
    desce assim assim
    devagarinho
    como Narciso sobre
    o seu reflexo
    até molharmos
    nossos corpos num amplexo
    que nos confunda
    talvez
    no mesmo espelho



    6

    Para cantar, pintar
    ou escrever
    lanço mão do prazer
    ao meu alcance
    mas nada se compara
    ao maior lance
    que faço
    ao deixar-me pertencer



    7

    Minha amada me encanta
    ao caminhar fluindo assim
    sem hesitar
    Que pés, que mãos
    enfim, que perfeição
    nascida com a função
    de apaixonar
    E eu, que outro tanto
    me sei bela
    posso entãoprostrar-me
    diante dela
    sem receio e orgulhosa
    de assim tanto a venerar



    8

    Deita-te aqui
    ó minha linda
    e fica imóvel
    enquanto a tarde finda
    Deixa-me somente percorrer ainda
    o teu perfil à contra-luz
    e os teus seios
    que em silhueta também sei-os
    tão perfeitos
    Deixa então
    que minha mão resvale agora
    tuas curvas, tão de leve
    e tão suave
    como roçam os minutos
    sua hora



    9

    Ouço a voz do meu amor
    que chega pelo elevador
    e penso nessa voz
    em como é linda
    e como a conheço
    tão de cor
    Depois abro-lhe a porta
    e ela me invade
    por todos os sentidos
    à vontade
    pois sabe-me a volúpia
    de servi-la
    como a metade
    serve
    outra metade


    10

    Olhe Aline
    espero a sua chegada
    pondoa casa toda preparada
    o leito perfumado levemente
    e as minhas telas
    cercando o ambiente

    Você já sabe
    como vou literalmente
    devorá-la
    como faço em minha mente

    Quando chegar não quererei
    nem conversar
    me atirarei sobre o seu seio
    e em seguida
    vou ficar talvez mais atrevida

    Só de pensar
    eu tremo de emoção
    e do vago receio que me possa
    por capricho ou por orgulho
    rejeitar


    11

    O meu prazer com meu amor
    me é sagrado
    e faz parte
    de um conjunto ampliado
    de amores e visão engrandecida
    do que é Gente
    do que é Arte
    e do que é Vida
    Procuro a alegria
    (já se vê )
    mas não renego a dor
    quando fecunda
    emanada do amor e sua procura
    sua perda ou sua morte
    tão profunda



    12

    Quando penso
    nos amores que vivi
    percebo que com eles
    construi
    com muita calma
    o edifício verdadeiro
    desta alma
    como vigas, tijolos
    e argamassa
    e por fim a superfície
    bem caiada
    ostentando a minha face
    na fachada



    13

    Vou te esperar
    Aline
    nesta noite
    e pra isso me preparo
    como noiva
    um banho quente
    para um pouco amolecer-me
    e pôr-me lânguida
    afim de receber-te
    Este meu delírio de odalisca
    me faz sorrir
    e o desejo me belisca
    Em minha mente construí
    meu próprio harém
    onde encerro o meu amor
    e a mim também


    14

    Olha, Aline
    não estou triste
    estou furiosa
    eu te vi nua
    gloriosa
    em viris braços e era tarde:
    ele em riste
    eu curiosa, tão covarde
    Era um sonho
    portanto era verdade
    eu olhava e gemia
    em tua delícia
    Percebia
    o membro que adentrava
    e com ele
    o meu desejo
    que aumentado
    pôs-me agora
    o coração meio nublado



    15

    Meu amor e meu tesão
    ó minha Aline
    durará enquanto
    deles eu fruir
    sem possessão
    pois
    quando rondo à noite
    sem temores
    tua cama, aurindo
    teus odores
    sem a sombra dos ciúmes
    me inebrio
    com a mistura que percebo
    de perfumes



    16

    Percebo, Aline
    que um dia vou perder-te
    por culpa desta mesma
    solidão que faz-me amar-te
    Cortejar tua beleza
    só faz parte
    desse mesmo ritual
    de contemplar-te
    sempre e sempre
    ao espelho desta arte
    de amar meu próprio amor
    em seu contraste



    17

    Podes deitar-te, Aline
    com quem queiras
    se te deres assim tão generosa
    Se estás comigo por beleza
    talento ou fama(coisa honrosa)
    continuo a querer-te, minha jovem
    interesses assim
    só me comovem



    18

    Sim, Aline
    sou romântica
    e percorro
    as ruas em morro
    deste bairro tão diurno
    passeando a solidão
    lago noturno
    sob a lua
    de um céu estrelado
    como um véu entre montanhas
    ou ainda à margem
    de um regato
    noutro tempo mais ameno
    e mais pacato


    19

    Beijo-te os lábios
    amor
    até o sangue
    e quase o fôlego roubar-te
    Como posso conter-me
    e não beijar-te
    sem demora
    olhando tua boca
    obra de arte?
    A perfeição existe
    e mora aqui
    um tanto em ti
    um pouco
    em mim
    Como isso é louco!


    20

    Se amares alguém
    mais do que a mim
    aí sim, Aline
    vou sofrer
    não do medo de perder-te
    mas da perda já sofrida
    pois que fui na tua balança
    interna, excluída
    por um peso maior
    que a minha vida


    21

    Quero gritar ao mundo
    o meu desejo
    pois que igual ao meu amor
    assim o vejo
    em meu espelho
    tão ardente e escabroso
    como a arte
    amor e gozo
    em toda parte

    FIM

    09/02/2001

    terça-feira, 8 de janeiro de 2008


    A banda Risses apresentará de novo o seu maravilhoso show, o dia 12 de Janeiro de 2008, lá no clube Caiubi, no Vila Teodoro, na Teodoro Sampaio 1229. Entrada Cr$5,00.

    ESTE POEMA DA ALMA WELT FOI MUSICADO pelo vocalista da banda RISSES, JOÃO ROQUER, e abre o show TERRA DESCONHECIDA que estreou com grande sucesso no dia 14 de dezembro de 2007 no CLUBE CAIUBI, na RUA TEODORO SAMPAIO 1229- Pinheiros.


    QUISERA UM JARDIM


    Quisera um jardim
    sob um balcão
    até onde a vista
    encontra
    o muro necessário
    à mesma vista
    repleta como com
    a braçada de flores
    que então chega
    numa manhã qualquer
    com um cartão
    fugaz
    e a escritura
    pelo apuro
    desfaz
    cor e textura
    ao próprio muro


    ALMA WELT


    http://bandarissesterradesconhecida.blogspot.com

    Poema digital para Andrea ( de Alma Welt)


    Capa do folheto Poemas à Andrea, publcado dentro de um kit pela Edições do Pavão Misterioso

    Poema digital para Andrea

    ( Alma Welt)

    Mulher que escreves
    teu nome sob doces declarações
    e ardentes carícias virtuais
    amando um rosto
    e um corpo que não viste
    e que talvez nem imagines
    em teu claro coração,
    que prodígios de amor,
    que sede encantada, que toques
    a pele da alma
    desta Alma!
    Ouves de longe meus gemidos
    como um surdo minuano
    soprando forte
    não gelado
    mas aquecido pelo coração?

    Eu te visito à noite
    em teu leito solitário,
    afasto com cuidado
    a triste cachorrinha
    (que lentamente se vai),
    para deitar-me
    trêmula ao teu lado
    nua como tu no teu leito
    de verão paulistano,
    que venho nua do longínquo Sul
    e não posso nem quero
    carregar roupas sobre mim
    em nosso ardente sonho nu
    compartilhado.
    Esperas-me nas noites
    pois sou “a gostosa da Internet”
    conforme teus gaiatos colegas de trabalho
    e quem sabe
    jocosos amigos
    carinhosos
    que te querem o melhor.

    Tudo me deleita.
    Como não sorrir para a beleza disto tudo
    se o amor continua raro e fomos bafejadas
    insolitamente, no doido mundo digital?
    Espera-me nas noites
    Andrea
    Espera-me na pequena tela
    que lá estarei nas ardentes noites
    de tua insônia molhada
    que me ofereces
    dadivosa
    como eu a ti.

    Quem poderá deter-nos
    em nosso deitar e rolar
    se somos livres como não se pode
    imaginar
    pois que não há testemunhas possíveis
    dos “obcenos detalhes”
    salvo um imponderável haker
    do futuro
    que invada o disco rígido
    onde lá, no fundo,
    ondulam os discos flexíveis
    das nossa colunas vertebrais
    no jogo amoroso
    eternizado nos circuitos
    do grande casarão virtual
    da máquina
    um dia uma sucata
    que conterá nossos segredos.

    Comoveremos o mundo
    um dia, Andréa,
    o mundo digital e virtual
    ainda mais futuro
    mas que porventura saberá
    verter lágrimas
    pela beleza...
    e pelo infinito gozo do amor .
    01/01/2006

    sábado, 13 de outubro de 2007


    Devaneio- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1991, 50x60cm, coleção Nina Assumpção de Faria, São Paulo, Brasil

    sexta-feira, 12 de outubro de 2007

    Prefácio de Guilherme de Faria aos Poemas da Alma, de Alma Welt

    PREFÁCIO aos “POEMAS DA ALMA”, de Alma Welt

    Conheci Alma Welt, há um ano, na primavera, quando, tendo tomado conhecimento do espantoso anagrama da grande gravadora Renina Katz, uma amiga comum, feito por Alma, e tendo ouvido falar de seus dons de interpretação, resolvi procurá-la, para que desvelasse o sentido de um determinado sonho enigmático que tive. Ao abrir-me a porta deparei, para minha surpresa, com a beleza verdadeira ( e isso eu não poderia deixar de mencionar, mesmo em se tratando da apresentação de uma artista, pintora e poetisa, como ela não tem problema em definir-se). A beleza da moça, portanto, em seus quase metro e oitenta de altura, distribuídos com doce harmonia, cabelo louro natural, rasgados olhos verdes e pele muito alva, impõe-se de tal maneira, que me obriga a essa descrição, pois do contrário eu pecaria por omissão ou hipocrisia. Além disso, o que mais me encantou foi a doçura da sua voz e a harmonia dos seus gestos ( ela me contou que conseguiu unir duas escolas opostas: o ballet clássico e a euritimia antroposófica, em sua formação desde criança.
    Tenho, pois, a tendência, sempre que penso nela, em deter-me em seu aspecto físico, a despeito da impressão igualmente forte que me causou sua arte. Pintora soberba, quando vi suas obras em seu ateliê, quase abandonei os pincéis. Mas foi a sua poesia, singela, simples, verdadeira, apaixonada, que acabou de me derrotar. Intuitiva, mas também sábia, ela evita as metáforas de linguagem, mas não de sentido, usando uma expressão direta, quase coloquial, em seus poemas, destacando o peso das palavras, com o recurso simples, contemporâneo, de isolá-las no verso, evitando qualquer pontuação, de resto desnecessária. Não é, portanto, nisso que consiste a sua originalidade, visto que é recurso conhecido e sobejamente usado na poesia contemporânea. Mas é a extraordinária autenticidade de sua inspiração,( aqui vale recordar Nietzsche: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas.”), sua espontaneidade e sobretudo a intensidade de sua paixão, que a destacam no cenário poético atual, a meu ver. Alma Welt pertence à estirpe das grandes amorosas, como Florbela Espanca e a grande Safo, que não se pejam de cantar o amor e a paixão, com lirismo rasgado, incendiadas às raias do “patos” e da obsessão.
    No entanto, ao contrário da célebre portuguesa, Alma Welt não abre mão de um equilíbrio interno em sua persona poética, uma serenidade e uma harmonia quase orientais, e nisso ela difere muito da outra.
    A feminilidade ostensiva do seu toque cotidiano, não chega a nublar a essencialidade, esta sim, universal, de sua visão, que beira o filosófico em certos momentos.
    Estou encantado, já se vê. Como artista plástico que sou, já a elegi, naturalmente, como musa e ponho-me a ilustrar os seus livros, embora seja ela própria pintora e desenhista, também. Criei a seu pedido, o seu Ex Libris, requinte em desuso, que haveremos de ressuscitar. Tenho em minha cabeceira seus três livros de contos que me encantam cada vez, mais à medida que os leio e releio, pela sua surpreendente graça e fluência; e o seu primoroso primeiro livro de versos, este POEMAS DA ALMA, que aqui, me honro de apresentar ao público neste prefácio inusual, despudorado talvez, em seu entusiasmo. É que, depois de muito tempo, vi-me novamente em face da Beleza, tal como eu secretamente sonhava, para uma mulher e sua poesia.

    São Paulo, 20 de Novembro de 2002

    GUILHERME DE FARIA

    Ode a Leonardo Da Vinci


    Perfil leonardesco de Alma Welt- lithografia de Guilherme de Faria


    ( Poema de autoria de Alma Welt, escrito aos dezesseis anos de idade)


    Antigos apelos se perderam no tempo
    Continuamos sós, na solidão...
    As planícies se erguem num vôo de águias e de corvos,
    Uma floresta de punhais recorta o espaço.
    Mas algo nos enfraquece ainda,
    Dispersos sob o sol desconhecido e agônico.

    Os continentes se cobrem de couraças,
    Que já sobrevivemos à Beleza,
    Que nossa dor persiste.

    Messer Leonardo da Vinci, mestre e pai,
    A tua voz lançada nos espaços do Tempo
    Chegou até nós, embora ainda indignos,
    Mas de antemão redimidos pela tua força.
    Todavia, falo por mim só,
    Solitários que estaremos sempre...

    Em sonhos e delírios sou a discípula bem-amada,
    De cujos olhos, dia a dia, intensificas a luz
    E a cujo ouvido murmuras sonhos loucos.

    Sou a discípulo dileta, renascida e pura.
    Sou tua procura, teu silêncio,
    A nobre curiosidade em teus sentidos,
    A tua casta barba afagada na concentração,
    E a tua poderosa e alva mão que afaga e cria.

    Perdoa, Mestre. Não te amei de um perfeito amor:
    Como Beltraffio, temi os teus poderes
    E a tua sabedoria perturbou-me a alma.
    Eras, em verdade, o mago, o bruxo, o grande Alquimista.
    Cavalgastes nas noites proibidas,
    Rumo ao Sabat dos deuses mortos.
    Conhecias a Noite e talvez fosses seu mestre.
    Terias transmutado os metais,
    Imenso criador de ouro que tu fostes.

    Nas cidades anoitadas sei que pairas.
    Às vezes suponho avistar a tua barba anciã
    Novamente transmutada no ouro da tua sábia juventude,
    Como um periódico cometa no céu da minha alma.

    Mestre, também estou só, procurando na Terra
    Enquanto procuras no Infinito
    Aquilo que já era teu, pois fostes verdadeiramente belo.

    Ama-me ao longe, Mestre, e dá-me a tua benção.
    Desde a Morada dos Sábios e dos Altos, dá-me a tua benção.

    Aqui, nos ossos da feroz maquinaria,
    Algo do teu amor lateja e subsiste.
    Algo da tua estranha fé renova-nos a face
    Consumida nos grandes estrépitos modernos.

    Perdoa, pois, ó Mestre, o que fazemos da tua voz.
    Distante a discernimos e a amamos sempre,
    Embora não saibamos responder.

    FIM

    quinta-feira, 27 de setembro de 2007

    O Pampa de Alma Welt


    "O Pampa de Alma Welt"- óleo s/ tela de Guilherme de Faria de 30x40cm, coleção particular, São Paulo

    terça-feira, 25 de setembro de 2007

    O Rosto (de Alma Welt )

    É sempre um rosto que amamos
    O brilho no olho
    a tristeza
    um sorriso
    uns lábios que queremos beijar
    ou calar
    com os dedos
    É sempre um rosto
    não uma palavra
    não a fala desses lábios
    nem sequer a marcante
    personalidade
    ou temperamento
    Mas um rosto, um rosto
    é sempre um rosto que nos apaixona
    e levamos conosco na alma
    para o leito solitário
    para o prolongado exílio
    para o túmulo

    Memória das memórias
    um rosto
    o barbado rosto
    de Deus
    ou aquele outro de passagem
    uma tarde em Veneza,
    mesmo
    numa simples rua Girassol
    ou mais prosaicamente
    na Fulano de Tal
    no Centro da enorme
    e triste metrópole
    logo iluminada
    É sempre um rosto que nos apaixona
    e levamos conosco
    para o túmulo

    Memória das memórias,
    Um rosto outrora
    “ lançou ao mar mil navios”,
    é sempre um rosto que lembramos
    um trágico rosto
    que nos compunge
    ou nos oprime
    ou ainda aquele adorável
    de criança
    congelado em graça no Tempo
    É sempre um rosto
    um riso
    um ríctus
    uma súbita amargura nos cílios
    na boca
    no cerrado maxilar
    Um rosto é o que amamos
    um determinado rosto
    mais que todos os outros
    é o que adoramos
    e levamos
    indelével
    intacto
    imune ao tempo
    nas retinas da alma
    Um rosto
    para alguns o corrosivo
    rosto de Dorian
    para outros, um enigma
    um sorriso de Monna
    Um rosto é o que elegemos
    ou que nos cabe
    É sempre um rosto só
    o que amamos

    23/04/2006

    domingo, 16 de setembro de 2007

    Poemas da Alma (de Alma Welt)



    Capa do folheto de autoria de Guilherme de Faria, publicado pelas "Edições do Pavão Misterioso", representando "Eros e Psiqué", em que esta é um retrato da própria Alma Welt, e para o qual ela posou, quando ela e o pintor se conheceram em 2001.
    1

    Na penumbra do claro ateliê
    ao entardecer
    me encontro
    só e grata
    toda uma vida
    tantas vidas
    percorrem-me o olhar de dentro
    ao som
    de um piano ausente
    intermezzo
    vindo de tardes outras
    tristes e fecundas
    como esta pequena imagem
    miniatura
    de minha solitária vida
    de pintora
    plena


    2

    Espero (meu coração admite)
    uma inesperada
    e oportuna visita
    Sempre espero uma visita
    redentora
    Meu coração
    metáfora impenitente
    aguarda o renascer
    moto perpétuo
    de um amor
    de muitas faces

    Porquê essa multiplicidade
    Se o verdadeiro amor é único?
    Boa pergunta


    3

    Estendo a mão
    ao acaso
    encontro sempre um pincel
    um livro, uma caneta
    não posso
    me queixar


    4

    às vêzes
    muitas vêzes
    rodopio eufórica
    neste meu pequeno salão
    improvisado
    de paredes derrubadas
    de apê anódino
    agora encantado
    pelo meu próprio
    toque
    eternamente
    entusiasmada
    Graças.


    5

    Quem me seguirá
    aos píncaros
    que a minha alma atinge
    em seu próprio universo
    construído
    à custa desta fé invencível
    no dom desta arte
    que me coube
    secreto merecimento
    do qual
    só temo o orgulho?

    6

    Ser mulher em meu corpo
    mais do que em minha alma
    universal
    como todas
    este o meu prazer e orgulho
    que molda este mesmo corpo
    com secreta perfeição
    visível em parte
    pleno para os meus amores
    glorioso em sua intimidade
    de quatro paredes
    e amplo leito


    7

    Quisera um jardim
    sob um balcão
    até onde a vista
    encontra
    o muro necessário
    à mesma vista
    repleta como com
    a braçada de flores
    que então chega
    numa manhã qualquer
    com um cartão
    fugaz
    e a escritura
    pelo apuro
    desfaz
    cor e textura
    ao próprio muro


    8

    Olho em torno
    e constato
    ter construído aqui
    sem um adorno
    no espaço limitado
    que me coube
    meu reino de prazer
    insuspeitado
    de livros
    e de telas só
    cercado


    9

    Retorno sempre
    ao eixo da criação
    ao lugar
    sagrado
    da última inspiração
    há quem não creia
    nisso
    de inspiração
    eu sim
    nada é nosso
    tudo vem dos deuses
    e meu orgulho
    é ser a sua boneca
    entre outras tantas
    nem tantas assim
    prediletas


    10

    Hoje ponho um vaso
    com flores
    onde retirei os pincéis
    eles não se excluem
    é claro
    flores e pincéis
    O visitante
    de hoje
    sucumbirá
    à sutil armadilha
    cruzo os dedos
    supersticiosa
    e boba
    que sou


    11

    Homem
    que deitas comigo
    teu corpo primoroso
    que nem sequer
    escolhi
    fui sorteada
    entre os deuses
    e és um deles
    maroto
    cheio da malícia
    ingênua
    dos olímpicos
    e como eles
    um laivo de crueldade
    escondida
    de ti próprio


    12

    Pode o coração
    pedir mais
    que amar amar
    e ser amada
    mui naturalmente?
    o mui se impõe
    vindo de longe
    coração português
    alma alemã
    minha sede é antiga
    dos dois lados
    e aqui deságua
    em ânsia
    nunca saciada
    de amar e amar
    e ser amada


    13


    Resvala
    a noite
    sobre este dia
    glorioso
    nada pode
    apagá-lo
    meu amor
    voltou
    quero gritar de alegria
    o meu amor
    nas altas horas
    do dia
    da noite
    do dia


    14

    Lanço sobre o papel
    o desenho
    inusitado
    possibilidade sem fim
    magia pura
    nunca esgotável
    alguma prestidigitação
    coisa de maga
    bruxa verdadeira
    arte é isso
    milagre
    atrás do truque


    15

    Levanto-me
    todo dia
    cantando
    de alegria
    estou viva
    estou amando
    querem mais?
    estou sonhando
    até escrevo
    sem querer
    rimando
    alegria mais profunda
    que a dor
    disse o mestre
    sempre soube
    e com lágrimas
    a saúdo


    16

    Quem negará
    o único tema
    que vale
    a pena?
    quem levantará
    a voz
    contra o amor
    “que reparte coroas
    de alegria”?
    estou viva
    e espero
    o meu amor
    chegar
    em breve
    fecho os olhos
    e canto
    para esperar
    o meu amor
    tudo assim
    simples
    como a poesia


    17

    Quero ter o timbre
    de um acalanto
    para o meu amor
    quando se deitar
    cansado
    a mais doce melodia
    brotará dos meus gestos
    quando ele cerrar os olhos
    nos meus braços
    seguro do meu amor
    poderá
    sem medo
    adormecer


    18

    A tela branca
    me convida
    me instiga
    espaço obscuro
    terra de aventuras
    montanhas
    a escalar
    mares navegáveis
    talvez hostis
    todas as terras
    e alguns astros
    tudo ao meu alcance
    nada garantido
    alguma dor
    como a vida


    19

    Basta-me
    a voz
    e o cheiro
    peculiar
    do meu amor
    para o desencadear
    da poderosa máquina
    das células
    do afeto
    feromônios
    dizem
    os cientistas
    poetas que eles são
    involuntários
    sua visão
    então
    me nubla
    e a embriaguez
    se instala
    irrevogável
    tomo porres
    do meu amor
    bebedora impenitente
    nada social
    não buscarei
    Amor Anônimo








    ALEGORIAS DA ALMA
    1

    Tantas ânsias
    outrora
    apaziguadas
    agora
    somente o meu amor
    no entanto
    se compara
    à busca dessa arte
    que me espanto
    ao constatar
    de mim
    a melhor parte.

    Volto ao centro
    de tudo
    que formou
    a face desta sina
    e comandou
    a razão
    a vida, forma
    e conteúdo
    sofrendo de amar tanto
    amando tudo
    sobretudo
    a beleza
    e tanta arte
    das quais os próprios deuses
    fazem parte


    2

    Carrego
    dentro em mim
    secreto arquivo
    de minha rica vida
    espelho vário
    de alguns grandes amores
    com seus gestos
    guardando seus temores
    num armário
    roídos pela traça
    de uma angústia
    que o coração perspassa
    como sombra
    apenas vislumbrada
    na vidraça


    3

    Ouço ao longe
    Uma flauta
    e um latido
    que uma imagem
    arcaica
    reconstrói
    sua forma
    permanece
    no mármore
    que o tempo
    apenas rói
    laica
    no friso
    um pastor
    e seu cão
    onde o latido?
    não temos mais
    a chave
    e o sentido


    4

    Só temo
    a voraz
    sanha
    das horas
    o delicado corpo
    devastando
    conquanto vai
    a mente
    acrescentando
    tributos da memória
    e seu tesouro
    perene talvez
    embora envolto
    em cada vez mais triste
    pano roto


    5

    Não pedirei ao tempo
    seu retorno
    nem ao amor perdido
    seu perdão
    não ao remorso
    não ao tédio
    muito menos
    do triste ócio vão
    o desperdício
    mas sim às incertezas
    deste ofício
    sim às lágrimas
    de dor e de alegria
    tão fecundas
    tão doces se colhidas
    no grato coração
    por toda a vida


    6

    para acolher o meu amor
    construo
    um cenário de ouro
    como igreja
    uma taça dourada
    sobre a mesa
    paramentada então
    em meu ofício
    sem um sermão
    nem mais fiéis
    senão eu mesma


    7

    Desço ao jardim
    das horas
    tão só minhas
    buscando pensamentos
    de beleza
    sou tão fiel a ela
    com certeza
    que me vejo qual
    sacerdotisa
    Vestal
    virgem em minh’ alma
    obstinada
    cultuando minha deusa
    destronada


    8

    Faço a mala
    jogando meus cadernos
    desenhos e poesias
    sobre as roupas
    levo também
    lembranças
    que não poucas
    encheriam
    malas e mais malas
    Esta
    a minha bagagem
    declarada
    Tão leve
    e ao mesmo tempo
    tão pesada
    que temo
    até mesmo
    ser barrada


    9

    Amanhã serei
    mais sábia
    com este dia
    transcorrido assim
    intensamente
    como pode o ser humano
    inteligente
    envelhecer talvez
    triste e doente?
    mas bato na madeira
    quando penso
    naquele inesperado
    fim demente
    de Nietzsche
    Maupassant
    Artaud
    Van Gogh
    e toda aquela gente
    tão brilhante
    que fica iluminando
    eternamente


    10

    Hoje desperto
    ao som
    de um violino
    e a melodia
    sugere o privilégio
    e a ironia
    que cerca
    o meu destino
    tudo conspira
    na manhã
    arte e carinho
    até este tão vago
    meu vizinho


    11



    Volto à casa paterna, comovida
    onde a alma e o coração nasceram,
    aparentemente, nesta vida,
    conquanto ecos ainda mais longínquos
    julgo escutar ao fundo, estarrecida

    olho as paredes, lombadas nas estantes,
    retratos e poeira tão constantes
    e um piano mudo expectante
    de mãos habilidosas já ausentes

    quanta tristeza, que noite persistente
    atravessa o casarão demente!...
    murmúrios e o correr das lágrimas
    do pranto e o ranger de dentes...

    contudo, na casa impregnada
    uma carga de ausência renitente
    que o coração martela ao pé da escada...

    no hall, no labirinto,corredores,
    jogo eterno da alma em seus temores,
    buscando o leito de dossel materno,
    o berço ao lado, o cortinado branco
    ondulando ao vento como por encanto...

    quero deitar de novo neste berço
    quero dormir ouvindo o acalanto
    e retornar ao mundo do sonhar primeiro,
    afugentando o sono do espinheiro
    pra ter de novo a casa que mereço
    e ouvir de novo aquele canto...

    no hall, no labirinto,corredores,
    jogo eterno da alma em seus temores,
    buscando o leito de dossel materno,
    o berço ao lado, o cortinado branco
    ondulando ao vento como por encanto...

    21/11/2005




    12


    Tenho estado
    a sorrir
    na intimidade
    não
    frente ao espelho
    na verdade
    conquanto isso se passe
    distraída
    percebo
    o movimento
    não na face
    mas neste coração
    que transbordante
    espera a hora
    e o sabor
    da saciedade.

    Ele virá
    é quase certo
    e esta esperança
    já põe
    nestes meus lábios
    esta dança.


    Pensando nisso
    dançarei
    afasto os móveis
    rodopio
    neste espaço
    generoso
    e imaginário
    eu sei
    em que me fio.


    Quanta emoção
    quanta ventura
    antecipada
    numa simples
    aventura
    imaginada!

    Tanto mais
    que me apercebo
    consolada
    que se ele não vier
    não perco nada.


    13

    Ponho um CD
    e a música
    fantástica
    toda uma ópera
    invade o meu apê
    Delibes
    Lakmé
    “où va la jeune hindoue”
    e vou com ela
    tinindo a campainha
    que a vela
    o tigre afastará
    e Vishnu embala
    que a filha do pária
    o encontrará

    E vejo ali
    a minha vida
    frágil
    como a pequena hindu
    com seu sininho
    que abre numa selva
    o seu caminho
    que é a minha arte
    tão modesta
    no mundo
    vasto
    como essa floresta


    14

    Para encantar
    o meu amor
    me rendo
    sincera
    ao seu viril encanto
    não tentarei domá-lo
    com meu canto
    muito menos
    ao seu falo
    montar guarda


    Não cercarei o espaço
    do guerreiro
    como uma ninfa
    produzindo ecos
    não rondarei atrás
    pelos botecos
    não lançarei Narciso
    em seu espelho


    15

    “Se queres
    desenhar
    fecha os olhos
    e canta”
    disse o mestre
    Picasso
    o que me encanta
    e me apercebo
    que o contrário
    também
    é verdadeiro
    quando quero
    cantar
    mesmo um bolero
    pego o lápis
    e o papel
    primeiro


    16

    Minha vida
    é um cântico
    profano
    e cheia de alegria
    sem engano
    encontro no
    amor cotidiano
    as pequenas coisas
    não mesquinhas
    que contam
    quando a morte
    se avizinha

    Mas pintura
    boa música
    ver e amar
    a deusa Plitseskaya
    embora em vídeo
    um canto de Elomar
    coisas assim
    poderosas
    e sagradas
    para mim
    estão ao meu alcance
    grandiosas
    fazendo-me sentir
    em minha corte
    da alma
    recebendo
    o jovem Mozart


    17

    Pintando a tela
    esperarei
    o meu amor
    ainda
    que não venha
    da jornada
    não desfarei
    do dia
    a pincelada
    conquanto
    já me encontre
    tão cercada
    Quando chegar
    se ele chegar
    dos seus cansaços
    terei um quadro
    uma canção
    e ainda
    o trono
    dos meus braços
    aguardando
    o seu retorno


    18

    Não me importa
    que o mundo
    tenha pressa
    não tendo olhos
    para o andar
    desta poesia
    o ser poeta
    não comporta
    garantia
    e apesar
    da aparente provação
    ao próprio mundo
    devo toda
    a inspiração
    As aparências
    quase sempre
    comezinhas
    escondem o fulgor
    de jóias raras
    escondidas
    em casas
    tão vizinhas


    19

    Como criança
    que fosse
    o coração
    resguardo
    não guardando
    nenhum
    ressentimento
    só quero
    erigir-me
    em monumento
    à minha própria
    e expontânea
    alegria
    que consiste
    em amar
    tudo o que existe
    e cantar
    o valor
    cotidiano
    do tão controvertido
    ser humano
    mas em mim
    em mim
    que o represento
    deste ponto
    de alma
    em que me assento


    20

    Para tornar
    a minha vida
    bela
    não mais acenderei
    nenhuma vela
    não farei promessas
    que não cumpro
    não conjurarei
    deusas ou numes
    através de preces
    ou queixumes
    Mas cantarei
    através da minha arte
    a alegria
    que encontrei
    e a poesia
    de estar viva
    sempre
    em toda parte
    com este imaginário
    como guia


    21

    O mundo
    é Maya
    no entanto
    certezas
    várias
    como fortes
    correntezas
    me trouxeram
    a esta praia
    de mim
    tão solitária
    Certeza
    do verso
    a necessidade
    extrema
    e da pincelada
    a exatidão
    velada
    Desenhar
    pintar
    escrever versos
    que valham
    o que sofremos
    ou amamos
    este o sentido
    supremo
    da jornada
    “a Arte é tudo
    o resto
    é nada”


    22

    Homem fútil
    que te esfalfas
    por
    uma firma
    um papel
    ou uma venda
    e quereis passar
    esse legado
    de sofrimento
    tédio
    e esforço vão
    aos teus
    rebentos
    devias saber:
    nada disso
    é importante
    e nada
    fica
    senão
    a lágrima
    derramada
    que se cantou
    ou o sorriso
    indefinível
    mas pintado
    com destreza
    como o fez
    mestre Leonardo
    A vida é breve
    a Arte
    longa
    Da humanidade
    presta
    o que resta.


    23

    Renovarei
    o meu alento
    se puder
    como
    Van Gogh
    O talento
    faz
    o que quer
    o gênio
    faz o que pode


    24

    Através
    dos livros
    tão queridos
    tenho todos
    os mundos
    ao alcance
    De todas
    as viagens
    tenho
    a chance
    e as lágrimas
    do herói
    banham-me
    inteira
    Mas volto
    ao casarão
    da minha infância
    e ouço
    os gemidos
    da porteira
    Desço
    ao porão
    da casa
    adormecida
    e escondo
    meus tesouros
    comovida


    25

    Renovo
    Todo dia
    meus votos
    de alegria
    e fiel
    á Arte
    que me guia
    incito a alma
    e o frágil coração
    ao bom conflito
    co’ a tristeza
    e a vaga nostalgia
    que ronda
    o quarteirão
    insidiosa
    e fria


    26

    Se Deus
    me deu
    a Arte
    é clara
    minha missão:
    lutar
    o bom combate
    ao feio
    e à depressão
    O mistério
    no entanto
    é a contradição:
    o belo
    engloba tudo
    o cômico e o
    grotesco
    num saco
    gigantesco
    de aparente
    confusão


    27

    Quando volto
    a rondar
    a macieira
    do velho pomar
    do casarão
    percebo
    o atavismo
    desta cena:
    remontaria
    à Eva
    e ao Adão?
    porque
    se estendo logo
    a mão
    ao fruto
    luzidio
    que ali pende
    em desafio
    uma ligeira culpa
    me suspende
    ali também
    a alma
    e o coração


    28

    O homem
    que me abraça
    todo dia
    surpreso
    com este livro
    de poesia
    conhece
    este meu corpo
    como a palma
    e pouco
    na verdade
    desta alma
    Dou-me a ler
    pois
    esta funda
    exposição
    ultrapassa
    a oferecida
    posição
    da mulher
    feliz em seu doar
    com suas pernas
    bem erguidas
    para o ar


    29

    Tenho ânsias
    e vôos
    em minh’alma
    que me espantam
    a mim mesma
    todavia
    pode haver
    maior contradição
    ó alma aventureira!
    ó coração
    varado em nostalgia
    que canta
    e chora
    como a Mouraria!


    30

    Às vezes penso
    que vou
    literalmente
    explodir em alegria
    amor
    ou entusiasmo
    Por que sou
    assim
    como um orgasmo
    ambulante
    e absurdo
    em minha mente?
    Percebo pois
    naturalmente
    que isso
    não se passa
    em muita gente
    Mas antes
    de qualquer diagnóstico
    de um possível
    médico
    pernóstico
    devo lembrar
    a mim mesma
    a natureza
    dupla
    feliz
    e mais completa
    de pintora apaixonada
    e de poeta

    Poema da Claridade (de Alma Welt)


    Capa do Poema da Claridade publicado em forma de folheto pelas Edições do Pavão Misterioso.

    Poema da Claridade

    Clara, clara, clara
    como champanhe
    borbulhante do teu riso
    nas ardentes noites do verão passado
    Claro como o corpo nu
    teu espaço claro de emoção
    lágrima clara de legítima dor
    de amor e de saudade plena
    Clara, clara, clara,clara
    como uma aurora
    aquela da tua confissão maior
    da tua entrega
    e fantasia
    Clara manhã
    afinal retornada
    puro lapso da língua
    no jogo das palavras
    quando o coração
    cansado de oprimir
    laceia, cede e sobe
    claro, claro,claro,claro como aquele
    dia, aquela noite e sua euforia
    inesquecível
    como o traço perfeito
    de um desenho perdido
    lembrado sempre e sempre
    como a tez
    como o sorriso franco
    nunca dúbio
    dos dias felizes
    Claro, claro como amantes
    por instantes
    que nada pediram
    Aquela ninfa
    aquela outra negra e viva
    como uma rainha
    de sua própria e clara noite
    claro amor
    clara intenção de amor
    que deita sementes
    aos pés da amada
    clara, clara, clara,
    dívida de alegria
    fonte do
    claro reconhecimento
    tua poesia
    das noites claras como um ré
    um mi
    um lá
    sem hesitação
    escolhida nota na canção
    de tua boca clara
    onde o carmim
    o sangue
    não tenham fim nem começo
    como a alma
    plena sobre o dia
    sobre a noite
    como uma espiga
    de puro trigo
    clara em teu ventre
    alta madrugada clara
    de paixão
    quando não foste
    e tendo ficado
    deste-te inteira
    e sem reservas
    Clara, clara,clara
    a vida que me retribuíste
    quando te salvei
    de um sonho mau
    e puseste teu braço ao meu redor
    naquela ardência clara
    que ainda vejo
    e reconheço
    primeira e clara comunhão

    Longe canta o pássaro
    a clara nota
    que me faltava
    Clara, clara, clara inspiração
    fugaz
    claro instrumento que produz
    um anjo
    uma canção
    o desenho
    o poema claro
    de nobre intuição insuspeita
    como um sonho
    como a vida que escolhi
    das minhas veias
    manhã de renovação
    noite clara de redenção
    erótica, clara
    como o sangue e o esperma
    sobre a sagrada cama
    do assumido amor
    do assumido veio
    de um desejo incontido e claro
    Clara, clara, clara,
    missão do artista
    certeza nunca desmentida
    sem perguntas
    sem medo, sem
    a triste e feroz autocrítica

    Lanço os dados
    do destino,colho
    as espigas trêmulas da alegria
    onde outros talvez
    hesitem
    na angústia e medo
    incompreensível

    Clara, clara, clara harmonia
    de um destino aceito
    de uma carta
    recebida
    contendo a resposta
    à clara pergunta
    formulada alhures
    noutra parte da vida

    Amor, gozo, engenho de viver
    pura criação
    escolha sem fim
    meta verdadeira
    eixo da criação
    legítima missão nunca renegada
    clara como o instante
    de recolhimento
    e dor, junto à lápide
    do verdadeiro amor de uma vida
    escolhida em claridade

    Onde a sombra, a dúvida
    a penumbra talvez necessária
    o vago receio
    o medo mesmo? perguntareis
    Eu digo clara
    a idéia, luta
    a inocência de escrever
    pintar e cantar
    sem peias
    e dar a ler
    a ver, a escutar
    Clara pulsão
    e resultado
    sem amarras
    longe todo o tédio
    maldição do tédio
    sua desdita, sua astúcia
    sua mal disfarçada malícia

    Ouve,amor
    Ouve o rumor claro
    dos passos decididos
    numa noite clara
    de amplidão e inocência
    claro privilégio
    da mente limpa
    afinal
    escolhida claridade
    redenção, pureza inata
    do paraíso interior
    em sua tênue senda
    encontrada
    não por acaso
    mas
    por clara, clara
    e pura intenção
    de claridade.

    FIM

    segunda-feira, 10 de setembro de 2007


    A poetisa-pintora (desenho de Guilherme de Faria para o qual Alma posou em seu ateliê em São Paulo, em 2001)

    Pampa (de Alma Welt)


    Capa com desenho de Guilherme de Faria do folheto Pampa, publicado pelas "Edições do Pavão Misterioso, dento do Kit Poemas da Alma


    Até onde a vista
    alcança
    eu percorri este pampa
    em minha infância
    e solitária
    primeira juventude

    Quantos vôos
    quantas cavalgadas
    (mesmo as que nunca fiz)
    pertencem a esta memória
    plena
    de campos, árvores
    e canções.

    Fandango da alma
    mate da memória
    eu vos saúdo, lembranças
    minhas
    eternas, deste sul.

    Acompanhem-me o passo
    vamos em direção à grande árvore
    macieira ancestral
    onde gravei nossos nomes...)

    Rudolf, Rudy
    depois Rodolfo, Rôdo
    e Alma
    assim enlaçados nossos nomes
    no profundamente gravado
    coração.

    Como corria estes campos...
    o pampa
    que estava ao meu alcance
    embora limitado
    pela vigilância invisível
    de um olhar
    internalizado
    de que mal me dava conta...
    A saia, um tanto comprida
    às vezes arrepanhada
    para saltar pequenas valas
    um avental, eu me lembro
    e sapatos absurdos
    de verniz
    sujos de terra.

    Ai, Rôdo, só tu sabias
    minhas trilhas
    meus segredos
    pequenas descobertas
    contigo logo compartilhadas
    como as tuas
    comigo.

    Universo mágico do nosso pampa
    sombras dos galpões,
    feno, ferramentas
    e mantas de charque
    cercando minha memória...

    Peões, peões
    ruído estridente de esporas
    e surdo
    de bombachas
    cuias, bombas
    o mate
    assim correndo
    nos lábios e canções.

    Homens, machos
    grandes costeletas
    e bigodes
    que me atraiam mais
    do que o devido
    não obstante o medo
    atávico
    do bicho homem
    ameaçador.

    Ai, quanto perigo
    despercebido
    devo ter corrido!...
    Pequena fêmea,
    bela, sim
    que eu era
    cheia de emoção
    e de candura...

    “Cachos Louros”
    me chamavam
    a guria do patrão
    a chinoquinha
    diziam baixo
    entre eles
    ouvi um dia.

    Memória, memória,
    sonho, saudade e sonho
    perdida para aquela infância
    nesta terra de cimento e vidro
    feia e terrível
    onde me encontro agora
    mas sempre
    estranhamente atraída,
    meu destino...

    Ah! pudesse eu voltar
    e correr contigo, Rôdo
    de mãos dadas
    atrás de algum segredo
    como de uma borboleta
    um potrinho
    uma vitela,
    sem medo, sem
    ameaça
    inocentes como no paraíso
    antes do fruto
    e da serpente;

    Reentrar no casarão
    avarandado
    cercado de flores
    como a barba grisalha
    depois branca
    de meu pai
    atraída pelo piano
    que tocava
    com os dedos delicados
    de artista
    o velho cirurgião!

    Colocar-me debaixo do piano
    olhando o movimento
    imponderável
    de seus pés
    nos incompreensíveis
    pedais
    depois subir
    olhar as suas mãos
    e os seus olhos
    concentrados
    que me olhavam então
    maliciosos
    com uma piscadela cúmplice.

    Ah!, Vati,
    criaste-me
    junto ao teu piano
    ao pé das estantes
    abarrotadas
    dos maravilhosos volumes
    que me abrias
    nos joelhos
    apontando as figuras
    Destes-me o mundo
    não somente
    o pampa.

    Como posso
    alçar-me,
    deixar estas salas
    estes quartos, estas varandas,
    cercadas destes pampas?

    Como posso chegar
    verdadeiramente
    ao mundo
    que me mostravas
    nos teus livros
    se a saudade
    me ancora nesta Infância?

    Como distanciar-me
    e percorrer o mundo
    como me querias
    sem nostalgia
    e sem a companhia
    da indesejada
    melancolia
    Sem os ecos
    dos galpões?

    Teu grande piano negro
    Vati
    me chama ao passado
    quando me debruçava
    sob ele
    com as mãos apoiando
    meu queixo
    os cotovelos no tapete macio
    que ali punhas
    somente para mim...


    E tua biblioteca, meu pai
    que eu imaginava fazer sombra
    à de Alexandria
    que me contaste ter sido
    queimada por um fanático
    e na minha alminha perplexa
    isso tinha sido
    ontem.

    Vati, mostra-me novamente
    as gravuras de Doré
    para a Divina Comédia
    assustadoras
    e a Bíblia, e o Don Quixote
    Pantagruel, Gargantua
    O Paraíso Perdido
    Vati, que me mostravas
    quando eu ainda não alcançava
    as estantes
    e sucumbiria
    ao peso dos volumes.

    Vati, como assobiavas bonito
    a Aurora de Beethoven
    e a Apassionata
    e ainda a Élègie de Massenet!...

    Como poderei, Vati
    distanciar-me?

    Espremo os tubos sobre a paleta
    lanço estes versos no papel
    e as tintas e as palavras me remetem
    à nossa estância
    que ainda está ali
    como um fantasma
    navegando
    na amplidão do Pampa.

    Como uma nave
    o casarão batido pelo minuano
    recusa-se a afundar!

    11/11/2003

    ____________________________________________________


    À minha mãe, Ana Morgado Welt (de Alma Welt )


    Mãe, perdoa
    tu fostes para mim
    um problema...
    Lembro de ti
    e busco na memória
    os melhores momentos
    e o que sobrou
    de ensinamentos...

    Ainda tenho os pés na terra,
    mãe
    graças a ti.
    a pontinha, pelo menos,
    que sempre quis alçar-me
    e tu me deste somente
    sapatilhas de balé.

    Teus pés tão fincados na terra,
    teus conselhos prosaicos
    e as sempre presentes advertências
    que me fazias
    de morrer à mingua na poesia...

    Mãe, perdoa.
    Como boa burguesa que tu eras
    citavas sempre os malditos
    que acabaram mal
    na pintura
    e na sarjeta:
    Van Gogh
    Gauguin
    Modigliani
    e alguns poucos outros
    (Anima-possuídos
    depois eu soube...)

    Mas não citavas
    os olímpicos
    que tiveram os reis
    a seus pés:
    Picasso, Rivera,
    Matisse, Chagall
    (Sem contar Dalí, que
    este é que se ajoelhou
    aos pés de um rei)...

    Ou aquele jovem Rafael
    que morreu cedo
    em glória, chorado pelo Papa
    e ainda
    o centenário Ticiano
    em seu palácio
    em Veneza
    com o porno-poeta Aretino
    como secretário.

    Não, Mãe
    não citavas o grande Leonardo
    que morreu nos braços do rei
    de França
    proclamando imensa honra.
    Tampouco citavas Goethe
    morrendo em seu leito
    que imagino imenso
    cercado de seus amigos
    quase tão célebres
    quanto ele próprio
    e pedindo
    “Mais luz!”

    Mãe, perdoa
    o meu ressentimento
    a que não tenho,
    certamente, direito,
    pois que me querias
    somente
    os pés na terra.

    Olha, Mãe, às vezes
    tens razão
    e a vida é mesmo
    um vale de lágrimas
    Mas só às vezes
    pois tendo escolhido a alegria
    de meu pai
    “mais profunda que a dor’
    encontrei, Mãe, a bela senda
    no Inferno
    e caminho sempre que posso
    sobre pétalas frescas...

    Tu sabes, Mãe
    que não minto
    e nada deploro
    principalmente...
    e agradeço o afã
    que demonstravas
    em vão
    de ancorar-me no real.

    No real,
    que tu pensavas ser o único...

    Perdoa, mãe
    Tu fostes para mim
    um problema.
    E os problemas
    incitam
    e ensejam soluções

    E agora, de onde estiveres,
    se ainda me vigias,
    me vês
    eternamente rebelada
    contra o mesquinho cotidiano
    a paleta e o pincel
    em punho
    e cercada de tanto papel
    rabiscado.

    Perdoa, pois,
    minha Mãe morta
    Tu foste para mim
    um problema...