sábado, 24 de dezembro de 2011

A Roda (de Alma Welt)


A Roda - de Matisse

A Roda (de Alma Welt)

Demo-nos as mãos por uns minutos
e uma grande roda façamos
plenos da sagrada alegria!
Quê de melhor alguém tem a propor?
Demo-nos as mãos e rodemos bailando e cantando
Como se fosse este o dia da libertação,
Que na verdade bem o pode ser,
Que cada dia é, se o quisermos...

Uma grande roda crescente, uma imensa roda
Cujo som de nossas vozes se alteie como uma onda
E que irmanados estejamos como num princípio ideal
Que imaginávamos na Terra dos Homens
Ouvindo estórias de avós e mães
Que queriam sua prole unida, e não dispersa...

Haja festa! Haja risos e brindes e canções,
Algumas picarescas, daqueles mais jocosos...
E que riamos, riamos o riso da inocência
Que é o riso que a Terra lembra
e quer de nós!...

domingo, 30 de outubro de 2011

Gengibre branco (de Alma Welt)

Hoje te escrevi
um bilhete
de um só fôlego
Não me respondeste
Missiva já antiga
lenta
como o burrinho
de um frei Timóteo
talvez chegarei tarde
demais...

Não irei direto a ti
Rondarei prudente
pensando em nós
quão belos fomos
na aurora
de nossas dúbias cotovias
rouxinóis e beijos...

Estou voltando à tua casa
ao teu quintal
para procurar
um gengibre branco
mais velho
para me apaixonar de novo
por ti

Estou voltando
para nós
sem resposta
sem provas
palpáveis
de que bem-me-queres
com o mesmo fogo
de outrora

Ah! esta casa
que conheço tão bem
como a palma
desta mão
que dou à palma...

Estou voltando à tua casa
ao teu quintal
para procurar
um gengibre branco
mais velho

Para me apaixonar de novo
por ti...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Manhã orvalhada (de Lucia para Alma Welt )


Alma Welt, manhã orvalhada -óleo s/tela de Guilherme de Faria,
110x140cm, Coleção GLATT, São Paulo, Brasil



Manhã orvalhada

(Para a amada Alma)


Nesta manhã orvalhada
caminhei pela campina como outrora
quando tudo parecia mais autêntico e vivo
pois a Alma estava entre nós
e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
Ainda ouvi sua respiração arfante
não tanto pelo andadura
como pelas emoções de seu olhar
sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
que me passavam despercebidos.
Senti novamente seu perfume
de mulher jovem inconcebivelmente linda
que só por isso já nos comovia
tanto quanto aos peões
que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
e tiravam o chapéu
ao seu riso cristalino.

Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
que agora nos falta!
Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas
entre a paisagem e nosso alento
que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
em teu vôo a um tempo gracioso e sobranceiro,
de branca garça pampiana
guria de cabelos flamejantes, de pele alva
de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
Esta foi, além de teus poemas
tua prenda maior mas tua desgraça,
pois também os maus te viram
e cobiçaram...
Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada,
quando rindo de alegria te afastavas de súbito
virando-te para mim
para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina
por puro prazer de viver.
Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã!
Que poema posso eu te escrever
senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
cheia de secretos encantos
que no entanto prodigalizavas?
Quanto te desnudavas em tua generosidade,
pois bem sabias que o olhar do povo,
deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
como não seria com nenhuma outra prenda!
Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses)
não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino
e fruir de tua pele de seda de impossível brancura
sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua
e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro?
(Ai! Na grande cidade também foste amada,
mas também violada
em tua comovente vulnerabilidade,
criatura exótica perdida no caos.)

Ah! Não poder nunca defender-te,
preservar-te do mal e dos maus,
cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal
e nunca mais deixar-te ir-se!...

Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão,
senti teu beijo em meus lábios,
o hálito fresco da pradaria
e soube que continuas por aqui.

E chorei consolada...


(Lucia Welt)
28/05/2008

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Olhar, olhares (de Alma Welt)

Eleito entre milhares
nosso olhar quer ver o mundo
e já pouco sabe de si.
Ser a súmula de olhares
apreendidos
é a norma
herança do saber
cultura e forma

Pouco de nós mesmos há
no verso camuflado
mal e mal
pelo vago temperamento
e arroubo
do momento

Entretanto
reconhecidos somos
pelas nossas escolhas...
ba! quem fomos?
tristes folhas
de um desconhecido outono
de pouca tolerância
Ao vento fluido
qualquer descuido
é ânsia
ou abandono
dor fatal


E sempre
descuidamos
no final


17/05/2006

domingo, 15 de novembro de 2009

Cogito (de Alma Welt)

Ofuscados pela luz,
não podemos enfrentar
seu brilho incrível.
Muito menos encarar
o sol que nos protege
e oprime.
Quão frágeis somos
sobre a Terra e seus caprichos
afinal benevolentes
se nos inteiramos
de nossa insignificância...


Abelhas e formigas
têm, visivelmente
o mesmo significado
que nós homens
perante a Vida e a Morte.
E no entanto...
porque cogitamos
e nos debatemos
na mente inconformada?

Tanta poesia
no papel
desperdiçada!...


18/07/2006

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Volta à casa paterna (de Alma Welt)


Capa do folheto com desenho de Guilherme de Faria



Volto à casa paterna, comovida,
onde a alma e o coração nasceram,
aparentemente, nesta vida,
conquanto ecos ainda mais longínquos
julgo escutar ao fundo, estarrecida.

Olho as paredes, lombadas nas estantes,
retratos e poeira tão constantes
e um piano mudo expectante
de mãos habilidosas já ausentes

Quanta tristeza, que noite persistente
atravessa o casarão demente!...
murmúrios e o correr das lágrimas
do pranto e o ranger de dentes...

Contudo, na casa impregnada
uma carga de ausência renitente
que o coração martela ao pé da escada...

no hall, no labirinto,corredores,
jogo eterno da alma em seus temores,
buscando o leito de dossel materno,
o berço ao lado, o cortinado branco
ondulando ao vento como por encanto...

Quero deitar de novo neste berço
quero dormir ouvindo o acalanto
e retornar ao mundo do sonhar primeiro,
afugentando o sono do espinheiro
pra ter de novo a casa que mereço
e ouvir de novo aquele canto...

no hall, no labirinto,corredores,
jogo eterno da alma em seus temores,
buscando o leito de dossel materno,
o berço ao lado, o cortinado branco
ondulando ao vento como por encanto...

21/11/2005

domingo, 1 de novembro de 2009

Poema perplexo (de Alma Welt)

O melhor de mim é a certeza
de minha perplexidade inominável
diante da vida erigida em religião
de mistérios e de assombros.

E o amor... por quase tudo
menos pelas moscas,
que essas seriam mesmo do diabo,
como mosquitos e algumas larvas

Mas o sol, e o seu pôr,
o sol...
só pode ser Deus,
se Deus houvesse.

Ando pela campina,
ainda a colher flores,
privilégio que veio a mim
de outras eras
E ao imaginar-me e mesmo avistar-me
com longínquo olho me comovo comigo
e abano a cabeça. conformada.
Romântica ? Talvez...
por pura estética...


17/08/2006

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mestre (de Alma Welt)

As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos

Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão

Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza:
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.

No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota...


Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Eternidade (de Alma Welt)

Haverá outra vida?
Não há como ter certeza...
Toda fé não é senão ingenuidade,
doce candura das almas.
Suspeito e temo que a morte seja o Nada
e por isso apavorante.
Todavia creio na perenidade da Poesia,
da palavra do poeta,
na imortalidade entre os homens.
Esta só me basta... enquanto idéia.
Que mais se pode querer?
É pouco restar entre os homens
como seu igual
e como intérprete
de suas alegrias e dores,
como seu bardo?
Não, por certo não é pouco...
E vós que almejais a vida eterna
deveríeis começar por plantar robustas árvores
que lancem poderosas raízes
e frutifiquem...
Como os bons poetas
e os artistas em geral
o fazem
cheios de fé...


15/01/2007


Nota
Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)

terça-feira, 14 de julho de 2009

O ninho (de Alma Welt)

Com o mesmo e esmerado instinto
com que o pássaro faz seu ninho,
o homem constrói a sua casa.
Homem e ave: o mesmo impulso
de aconchego e proteção...
O mesmo anátema os atingiu?
Parirás em dor? Chorarás teus ovos roubados?
E no entanto... quanta arte!
Lançados na terra e no ar
homem e pássaro
não temos pouso
senão a leste do Éden
cercados por este paraíso
bálsamo ao olhar
e inatingível...



(sem data)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Poema triste* (de Alma Welt)

Não, a maior tragédia
não é a morte
mas a perda da felicidade.
A irremediável, a incontornável perda
da felicidade que um dia existiu
e que se considerava perene.

Ah! Os dias de cantos, danças e carícias!
Os dias de terno langor
no leito ou na varanda de um jardim florido
quando as crianças correm por ali
e o ser amado nos acena
sorrindo dentre elas...

Não, a tragédia não é a pura solidão, inata,
adquirida ao nascer
e que nos acompanhará até o final.
É termos um dia acreditado vencê-la
ou termos por algum tempo conseguido superá-la,
enganá-la, a ela, a solidão esmagadora,
e escondê-la tão bem de nós mesmos.
E ela, afinal... ter vencido.

Não, a tragédia não é
termos sido infelizes
em nossa vidas.
É termos perdido a felicidade
um dia conquistada
e não podermos mais viver
dentro de nós,
de nossa própria pele,
dentro de nossos próprios sonhos
ora perdidos...



______________________________________________________


Nota

*Pungente poema recém-encontrado na arca da Alma, e que talvez explique o final trágico da musa do pampa.
O original, num pedaço de papel de embrulho, não tinha título, que foi improvisado por mim. (Lucia Welt)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Aos jovens poetas (de Alma Welt)

Aos jovens poetas (de Alma Welt)

Não digas, ó poeta: “eu sou um rio”,
Ou pior ainda “eu sou o mar”.
Não porque isto seja desvairio,
Não vês que isso não é senão vulgar?

Não digas “meu abraço abarca o mundo”
Ou ainda “a sintaxe do amor...”
Isso dói, é feio, quase imundo,
Ou no mínimo tem cheiro de bolor.

Não digas “despi-me dos meus gestos”
Mas, sim, sem pudores tira a roupa,
Pois que a poesia tem momentos indigestos
Mas aos falsos e hipócritas não poupa.

Sim, porque o que jogas no papel
Ao teu rosto voltará, como no vento
A cuspida que deste assim ao léu,
Pois a letra grava o vão momento.

E assim, se for legítimo o tempero
Não precisas mais te preocupar
Pois não foram colhidos no pomar
Do vizinho o pomo e o desespero.

(sem data)

terça-feira, 8 de abril de 2008

À derradeira amante ( para Andrea, de Alma Welt )

Foi na grande cidade,
Andrea
que te encontrei
sem jamais ver-te,
que te quero ver.
Estás longe,
estás só como eu,
aqui no casarão
entre as minhas flores,
as árvores do meu pomar,
e a pradaria.

Minha macieira, meu bosque,
minhas crianças
adoradas, Andrea,
não mais logram
abrandar esta solidão
que é tua.

És a última, querida,
a saberes de mim
com intimidade e doçura,
com ardor também
e fome,
como nenhuma outra
jamais.

Dou-me a ti, toma-me, sou tua,
que te escolhi
(em princípio
nem eu mesma sei ao certo
o porquê...) e me amaste
poderosamente

Devora-me, guria,
virtualmente que seja,
para que eu viva
mais intensamente
que nunca!

Que eu me projete
na tua doce alma
como nestas árvores,
flores, campos
e mais perdure!

Que assim vivi neste meu pampa...



09/01/2006

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Poente branco (de Alma Welt)

Ao deitar-se o sol sobre o meu Pampa
No suave leito das coxilhas
Demora o meu olhar descendo a rampa,
Retorna ao berço destas maravilhas,
Eterna moradia da esperança
A casa onde fui... e sou criança.

Para aqui regresso no crepúsculo,
Intencionada a sentar-me na varanda,
Ladeada por um lindo ser minúsculo:
A Branquinha que ao meu lado anda,
Retornada ao lar em sua alma branda.

Assim é que descubro o elo franco,
Maior, entre mim e ti, amor,
O signo do meu corpo assim tão branco,
Repousado junto a ti... e a se pôr.

AMANTES ( poema de Alma Welt)

CARTA DA LUCIA À ANDREA ( à guisa de Prólogo)

Querida Andréa

Espero que estejas bem. Quanto a mim, continuo organizando os papéis da Alma, sua obra abundante e surpreendente. Acabo de descobrir mais um poema da irmãzinha, que me parece muito belo ( embora eu não entenda de poesia) e em que descobri mais um acróstico do teu nome, Andrea, nos primeiros versos. Parece-me, por alguns indícios(anotações à margem, com esferogáfica) que ela, por alguma razão não o remeteu a ti. Estas coisas me surpreendem, e encantam, por perceber a intensidade do amor de minha irmã. Eu sempre a invejei (no bom sentido) por ela viver assim, como uma diva, uma personagem de ópera, ou heroína de um romance, que afinal, era o dela própria. Nunca poderemos compreender os poetas totalmente, embora suas criações nos digam respeito, ou mesmo nos elevem. A ardência prodigiosa de suas paixões nos tiram o fôlego. Em sua pele, morreríamos no primeiro dia, exaustos, quero dizer, nós simples mortais. Pois a sua dor, junto com seu êxtase, Andrea, é quase insuportável, e me faz chorar pela minha irmãzinha, poeta que um dia o mundo conhecerá em sua grandeza, para sonhar, e...sofrer com ela, que precisava do mundo como sua platéia, legítimo direito dos artista universais, como ela parece ser. Remeto-lhe agora esse poema, que é teu. Quem sabe se ainda encontrarei outros. Alma parece inesgotável em cada filão seu...


Amantes

(Alma Welt)

Amantes, amantes, eis o jogo,
no amplo espaço de minha mente
durante o atemporal percurso do poema,
repositório de gozos e segredos
e as doces lembranças do meu leito
amarfanhado pelos corpos e suores.

Por aqui passaram meus amores
inigualáveis e ávidos de mim,
loucos de minha carne, de meu hálito,
amantes sábias de mim, de meus delírios,
roubadas que me foram pelo Tempo.

(Tu sabes meu amor, já me conheces
sem jamais ver-me face a face
Conheces o meu cheiro
e a cor rosada das aréolas e mucosas
Que te entrego pela voz
inaudível da exímia palavra
plena de sugestão
pelo puro prazer de violar o espaço
e dar-me, dar-me, a ti
aonde quer que estejas solitária).

Mares, mares, eu os conheço
do espaço energético e exato de um retângulo
nas noites profundas de orgasmos
em que me encontro no fundo
de mim mesma.

O que pode, ó deuses, comparar-se
à aventura de dar-se, de entregar-se
ao outro, à outra, sem contrato
sem peias, sem rebuços?
Sem barganhas, sem aquele
pudor dos falsos, dos hipócritas
talvez mesmo dos covardes?

Outrora fui, por bruto violada
e amei, sim, amei-o em pleno estupro
com toda a inocência de minha alma,
malgrado o susto, a dor
e o gozo inesperado.

Amantes, amantes, plenos de imaginação...
Eu me entrego na esperança de perder-me
no coração do outro, em sua carne assim rompendo
as amarras do ser, suas fronteiras, seus liames
da condenação atávica do ser.
Onde o limite? Não quero. Para além
é o que busco, a imensa pradaria do outro,
predestinado, fronteiriço da alma ou não,
um ser de amor e mar, leito de uma noite,
quiçá de uma outra vida, para além das fronteiras
que o homem falsamente impõe.

Não quero regras, só
a feroz senha de doçura,
o milagre dos humores e seivas
que se mesclam,
dos corpos que se fundem
amalgamados.

Esta noite terei todas as noites.
Depois posso morrer.

Aqui, no casarão as trevas sobem,
cessam as luzes, descansam candeeiros.
É a hora mágica dos sonhos acordados,
dos suspiros e mãos hábeis.
A noite dos amantes aqui tem a sua guarida:
receberei a sua imagem recriada por mim
enquanto me penetro
com minhas próprias mãos, meus dedos
minhas receitas, delícias escabrosas,
projetadas de mim, privilégio da mente,
pequenas dores voluptuosas,
lembranças cultivadas
de um estupro ideal...

Tudo é ficção.
Tudo é real?
Qual a fronteira? Não há.
Somos seres de projeção, seres da noite,
feitos para o sonho ardente dos amantes.

Esta noite receberei o meu amor!
Quem poderá deter-nos
em nossos arroubos, mentes desatadas
fontes borbulhantes de desejo?

Nunca soube o real...
Esta noite receberei os meus amores,
bacante de uma orgia, em honra
de mim mesma!



17/12/2005

Meu amor quer claridade (de Alma Welt)

Meu amor quer claridade
extensas pradarias
jardins de sonho
e flores palpáveis
meu amor quer tudo
meus delírios
meus pés firmes
plantados
na terra do seu seio
minhas garras
quer meus beijos
minha sede
ardência de lume
nas noites
do meu pampa
luz bruxuleante
nos corredores
soturnos
do casarão adormecido
crepitar de velas
de antigos serões
candelabros de sonho
taças, vinhos
e a doce embriaguez
de encantos
e celebrações
meu amor quer tudo
tão doce
feroz em sua paixão
ardente, sôfrega
ninfeta e mulher plena
algo fatal
em sua ancas, lábios
na concha quase impúbere
e glabra
entre as virilhas
seio de alabastro
o meu amor
pertence às sagas
mal sabe
o seu mistério
de outras lendas
arena de candura
criação, obra dileta
de terna fantasia

meu amor
pequena deusa
Psiqué
nascida mortal
não sabe
o seu poder


15/06/2005

quarta-feira, 5 de março de 2008

Resvala a noite (de Alma Welt)

Este poema simples e extremamente lírico foi musicado lindamente pelo Gulherme de Faria que o canta ele mesmo e também criou as harmonias e o arranjo que são executados pelo músico Luiz Ramos, do Estúdio Harmony (na rua Augusta) como orquestra de cordas como acompanhamento ao sintetizador. O projeto, no entanto, a ser gravado, é para voz de soprano lírico, como música de câmara.

Resvala
a noite
sobre este dia
glorioso
nada pode
apagá-lo
meu amor
voltou
quero gritar de alegria
o meu amor
nas altas horas
do dia
da noite
do dia


Ergue-se o dia
Em manhã de primavera
ninguém pode colher
as flores do porvir
Somente eu e o meu amor nesta manhã
e o ramalhete
das horas
do dia
da noite...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Orsília (de Alma Welt)

(Este notável e estranho poema foi escrito por Alma quando ela tinha apenas 16 anos, já denotando o seu caráter romântico e um tanto esotérico, dentro da grande tradição do Romantismo Alemão de nossos ancestrais paternos. (Lucia Welt)


ORSILIA

Numa floresta gótica
Jaz, erma e terrível, a lembrança de Orsilia
A mágica luz dos entre-arcos, que nenhum vento distorce
Pousa nalgum lugar de seu corpo, um reflexo de dor.

Suas tranças germinaram, recompondo a dourada face
Nenhuma oscilação afugenta o espírito em seu retorno,
Mas toda a atmosfera submete-se a uma paz ditada pela morte.

O silêncio canta uma balada ancestral.
Nem a névoa estagnada dos pântanos
Nem o petrificado gesto do íbis
Se dispersa ante tão suave angústia.

Orsilia vagueia seu amor translúcido
Seu triste amor, agora isento de recordações
......................................................................
à margem de uma estrada, um vento sofre nas ramadas.


______________________________________

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Meu perfil (cordel deAlma Welt)

Acabo de encontrar este perfil da Alma, perdido na montanha de seus textos, dentro da arca de sua obra inédita. Este curioso poema narrativo auto-biográfico, que ela classificou de "cordel", me faz crer que ela pensava em abrir seu blog e que não teve tempo. Infelizmente também o poema parece ter ficado inacabado, interrompido... (Lucia Welt)



Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,

Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)

E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço

De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço

Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.

Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros

Que eram de viver solta
Junto de companheiros
Que estavam à minha volta:
Os meus deuses derradeiros,

E o mais belo querubim
Que era Rodo, irmão amado
A quem Ananque, a do Fado
Quis fazer-me amar assim.

Meu pai, a quem chamo Vati
Tomou-me então pra criar
Destinada a ser um Vate,
Pagã, sem jamais pecar.

Para isso resgatou-me
Dos braços da Açoriana
Que me levaria à Santana
E da charrete tirou-me

Pra não me deixar batizar
E nem mesmo ouvir falar
De “pecado original”
Ou outro pecado que tal.

E assim vivi neste prado
No jardim, no casarão,
E no meu pomar sagrado
Da árvore do coração,

Sim, a ARA, macieira
Que gravei com o canivete
Do meu querido pivete
E sua flecha certeira...

E no pomar-paraíso
Sob a árvore sagrada
Fui um dia encontrada
Nuazinha e sem juízo

Por minha mãe furibunda
Que puxando-me os cabelos
E fustigando-me a bunda
Me interrompeu os desvelos...

Pois não estava sozinha
Mas com meu irmãozinho
Sua mão na minha xaninha
E a minha no seu pintinho.

Ai! Me lembro do arrastão,
Por uma fúria arrastada
A cobrir-me com a mão
Que assim fui obrigada.

Bah! pobres destes maninhos
Puxados pelos cabelos
A cobrir-nos, tão sem pelos,
As vergonhas que não tínhamos...


.......................

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DOZE CANÇÕES DA LUA (de Alma Welt)

Leitos da Lua (de Alma Welt)

(13)

Pelos pagos planos do meu pampa
Ia a lua vagando em vaga via,
Feitora das marés em sua rampa

Mas, ai! aí eu ia ao seu apelo,
Levitada de meu leito de guria
Para banhar-me à luz do seu desvelo

E, pura, pelos prados do prazer
Eu pulava por planura e pouco chão,
Já prestes a pelar pra a lua ver...

E foi assim que minha mãe, a Açoriana,
Depois de procurar-me, não em vão,
Notou-me nua em nívea névoa, ó lua hermana!


(sem data)


Notas da editora

Por curiosidade revelarei aqui dois tercetos que finalizariam o poema, mas que a Alma riscou, excluiu, pela sua extraordinária sabedoria técnica que sabia sempre quando um poema estava terminado, evitando o demasiado circunstancial:

"E me pegando pelo punho me puxou
Arrastando-me de volta ao casarão,
Brutalmente no banco me botou,

Onde, tímida, tremendo, torturada,
Fui resgatada por guri, sim, o irmão!
Que lívida levou-me e... fui amada."



Com esse curioso e encantador poema, cheio de aliterações, dou por terminada a minha pesquisa e alinhavo do que convencionei chamar Canções da Lua, da Alma. Naturalmente é possível que outros poemas da grande poetisa se encaixem nessa denominação ou gênero, e que eu ainda os descubra na incrível montanha de textos de minha irmã, em que estou embrenhada. Mas por ora, com estes doze podemos, eu e o querido João Roquer (da Banda Risses) pensar em musicar e criar um CD, para o qual já encomendei a capa e o encarte ao mestre Guilherme de Faria, que os amou. (Lucia Welt)


_______________________________________________

Pelos Caminhos da Noite (de Alma Welt)

12

Pelos caminhos da noite
que já conheço tão bem
sem que tema nem me afoite
caminho como ninguém

O poema é meu guia
e a lua farol brilhante
Meu corpo é a cotovia
que por sua luz se adiante

Ah! minha lua faroleira
que giras sobre este mar
que só tem sua fronteira
se mil porteiras fechar

Navego por entre coxilhas
como as ondas desse mar
Ah! encantadas ilhas
do meu doido navegar!

Lua, lua me carregue
já começo a me alçar
Estou nua estou entregue
ao teu fio de enredar

és a aranha da noite
em tua teia estelar...


_________________________________


A Barca da lua
(dos Sonetos Pampianos da Alma)

(11)

Lua do meu pampa, remadora
Que me chamas nas noites de verão
Pela minha janela tentadora
Por onde fujo descendo até o chão

Pelos galhos da minha amoreira
Que plantei, criança muito esperta
Pois já tramava escapar de minha coberta
E vagar pelo jardim qual feiticeira

Co'a varinha acendendo os pirilampos,
Brincando com os sonhos e a magia
Que sempre habitaram nestes campos.

Lua, promete, me arrebate
Ao olho fatal que, sei, me espia,
E conduze-me em teu barco ao Grande Vate!


11/01/2007


Nota da editora


A rigor este lindo soneto recém-encontrado pertence aos sonetos Pampianos da Alma, mas pela temática resolvi publicá-lo aqui embora haja nos Pampianos muitos outros também com a temática da lua. (Lucia Welt)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Lua de seresta (de Alma Welt)

(10)

Seresteira irmã da Alma
que me fazes acordar
após um sono sem calma
que permitiu te escutar,

Lua, lua, só me resta
ir vagando ao teu encontro
para ouvir tua seresta
a que respondi de pronto.

Meu balcão é a varanda
sobre teu jardim lunado
recendendo à lavanda
do jasmineiro acordado

E logo assisto ao desfile
dos luzeiros encantados
dos pirilampos do Chile,
que assim os quis rimados...

E então me ponho nua
pois não posso me esconder
do olhar arco-de-pua
com que verrumas meu ser.

Depois deitada entre as flores
afasto meus brancos membros
para que vejas as cores
dos dias de teus setembros.

Mas, ai! comicha-me a gruta
um travesso vagalume
e fujo como uma truta
pro meu leito de costume.

Lua nova, aqui me deixes,
não me faças te buscar!
Teus cantos de rio e mar
alvoroçaram-me os peixes...


(sem data)

Vigílias pampeiras (de Alma Welt)

(9)
Quando cai a lua cheia
sobre alfombras de coxilhas
um canto de plena veia
percorre o Pampa por milhas

E vemos os fogos no chão
com as chaleiras que chiam
fervendo pro chimarrão
dos "gáltchos" que silenciam

para ouvir cantos de lua
ao som de foles gaudérios
com estórias de mistérios
de uma estranha prenda nua

que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como o rastro de um açoite
nessa vigília pampeira.

Já sabem usteds quem é
essa china impenitente
que chega a sorrir até
ouvindo o que diz a gente?

Voem cantos, chie o mate...
Olhar, comece a vigia!
Esta noite cante o vate
as façanhas da guria!

Que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como rastros de um açoite
na grande noite pampeira.

(sem data)

Nota da editora

Nos últimos tempos recrudeceu o hábito da Alma de sair tarde da noite cavalgando nua e em pelo a sua égua Miranda pelas pradarias até longe do casarão. Isso aumentou a sua lenda entre os peões aqui na nossa região.
Uma noite, Matilde, nossa cosinheira e sua ex-babá, que percebeu o que acontecia, conseguiu impedi-la amarrando-a na cama. Ela achava que Alma estava louca. Confesso que não a desamarrei e fiquei à sua cabeceira acalentando-a, até que cessou de se debater e adormeceu.

Teia lunar (de Alma Welt)

(8)

Pequena lua impassível
que de noite vens me olhar
com teu brilho impossível
de a ti mesma revelar

Que me dizes, o que quer
teu branco olho lunar?
Teu silêncio me requer
desfazer-me em meu tear?

Levanto-me branca e nua
no meu sonho recorrente
e vou andar pela rua
como uma pobre demente

Até retornar ao leito
vaga, sonada e lenta
trazendo uma flor no peito,
na boca um sabor de menta.

Sob os lençóis macios
me deito já desfrutada
como esses seres vadios
de tua louca noitada

E durmo com minhas mãos
que desfizeram a teia,
repousando entre os vãos
que o teu olhar incendeia.


(sem data)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A alucinada ( das Canções da Lua, de Alma Welt)

(7)
Pelas margens do meu rio
irei nas noites de lua
entre o sonho e o delírio
por esta espécie de rua

que me leva a este nada
perfeito, noturno e claro
onde encontrarei a amada
e seu canto muito raro.

Lua, lua aí vem ela
envolta em tua aura
azulada que até gela
mas que tão logo restaura

a sua feição bonita
em risos de alucinada
que entre cantares grita
o seu amor, pela estrada

que me leva a esta amada
perfeita, noturna e clara...


(sem data)

Lua cigana (de Alma Welt)

(6)
Minha cigana vem vindo
no seu carroção da noite
buscar-me para um pernoite
que já me vejo fruindo.

Lua, lua cigana
começo a ouvir o teu canto
e ainda não sei o quanto
estás perto desta "hermana".

Voarei se me quiseres
nas asas do teu luar
por suas trilhas no ar
em campos de mal-me-queres.

E quando enfim começar
o fandango de rabecas
tuas ciganas sapecas
me verão também bailar.

(sem data)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Canção da noite de lua (de Alma Welt)

Mais uma "Canção de Lua" descoberta entre a imensa produção da Alma, ainda inédita, encontrada em sua arca... (Lucia Welt)

(5)

Pela campina anoitada
minha lua está a vagar
lançando apelos na estrada.

Te quero, lua, e irei
contigo esta noite deitar,
que já não tenho mais lei.

Me porei nua nos prados
pra me causares marés,
pra me lunar dos dois lados.

Branca como uma fada
me deitarei aos teus pés,
a ti serei consagrada.

E quando fores de dia
pro teu refúgio secreto,
me farei tua cotovia:

Voltarei cantando ao lar
contar ao irmão dileto
que longe fui namorar...

(sem data)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Canção da bela lunada (de Alma Welt)

Mais uma Canção de Lua encontrada entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

(4)

Lua noturna amazona,
por quem me tomas minha lua?
Não sou chinoca de zona
por me veres assim nua.

Teimas em me desnudar
Ah! Como somos tão brancas!
Com o pálido nenúfar
a boiar-nos entre as ancas.

Se me deito como em parto
é porque sou tua amante.
Se permaneço em meu quarto
é por seres inconstante.

Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio.
Sou bela... não tive escolha.

Esta noite irei ao prado
e te abrirei o meu seio
para que seja encontrado
lunado, frio e alheio


Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio...


(sem data)

Lua de "ménage" (de Alma Welt )

Mais uma "Canção da Lua" que encontrei entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

(3)

Pelos prados de coxilhas
me verás cantar à lua
qual fosse senda diurna
do meu jardim, pelas trilhas.

Que podes senão seguir-me
com teu fino violão
e tentares perseguir-me
na minha bela canção?

Seremos um sob a lua,
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua

Até deixarei tocar-me
sob seus claros lumes
para à lua fazer charme
e provocar-lhe ciúmes

........................

Seremos um sob a lua
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua...



(sem data)


Nota da editora:

O fato de de Alma ter repetido a penúltima quadra no final, como um refrão, confirma, a meu ver, a sua visão deste poema como uma canção para ser musicada mesmo. Musical como ela era, é uma lástima que ela não tenha tido tempo em sua vida para musicar seus próprios poemas e cantá-los. Mas onde estiver, creio que ficará satisfeita com as melodia que o jovem João Roquer, e a bela Lika, ambos da Banda Risses, estão colocando em seus poemas. João já prometeu musicar todas as "Canções da Lua" da Alma que lhe inspirarem melodias e harmonias.

O acordo (de Alma Welt)

Encontrei, maravilhada, uma série característica de poemas da Alma dispersos no meio de sua vasta obra na arca de nosso sótão, que alinhavados formam o que passarei a chamar "Canções da Lua". O querido João Roquer, da banda Risses, já prometeu musicá-los.(Lucia Welt)

(2)
O acordo (de Alma Welt)

Por estes prados de mar
Me avistaste num clarão
Em meu louco navegar
Me olhavas do teu balcão

Não te cansas de chamar
Qual se ainda fosse tua
E não vagasse no ar
E não estivesse nua

Mas o quê sabes de mim
Na minha eterna aventura?
Vou atrás da minha lua
Nada podes com algo assim

Lembra do acordo, não jura,
Feito no nosso jardim...


08/11/2006

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Lua de Yupanqui (de Alma Welt)

Surpresa e encantada encontrei este lindo poema inédito da Alma em sua arca, no nosso sótão. Já me parece uma canção, pois canta desde já pedindo ser musicada. Conclamo aqui o querido João Roquer (da banda Risses) a fazê-lo. João, porás melodia nesta canção? Tu a cantarás? Te peço... (Lucia Welt)

Também a ti cantarei
pois cantar, lua, não manque
quem te pudera cantar
depois do "gáltcho" Yupanqui*
quem te soubera encontrar
em meio a névoas de sangue
de tanto tanto buscar
em caminhadas de mangue,
as tuas sendas no ar

Lua dos amantes cegos
e dos tais impenitentes
que não te podem mirar,
Dos incautos, dos valentes
que se dispõem a sonhar

Lua lua aqui me vês
perdida como uma rês
que a si se quis apartar

Leva-me em tua barca
não me deixe aqui restar
esquecida de tua arca
de par em par, no afã
de teu lento naufragar,

Que sou pequena, sou órfã,
também já não tenho lar...

(Alma Welt)

Nota de editora

*Yupanqui- Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, célebre, da província de Tucumán, autor de inúmeras canções imortais como a celebrada Luna Tucumana, que se tornou praticamente folklórica, uma das canções pampianas mais amadas pelos argentinos. Alma adorava essa música e a cantava lindamente acompanhando-se ao violão. A voz de Alma era belíssima, indescritível, e sua pronúncia castelhana, perfeita. Ainda a ouço na memória, e choro ao me lembrar... (Lucia Welt)

Para ouvir a canção Luna Tucumana, em belíssima interpretação:

http://br.youtube.com/watch?v=WXdoZyciqNQ

sábado, 26 de janeiro de 2008

A meu pai, Werner Friedrich Welt (de Alma Welt)

Vati*,
não morri contigo
embora a dor
quase me tenha solapado.

Estavas inteiro em mim, pai,
já me tinhas
ensinado quase tudo.
Deixaste-me teus livros
e algumas boas telas...
E a música, então, Vati?
Estava tudo lá...
Os três grandes Bês
como dizias:
Bach, Beethoven e Brahms
e todo o panteão de deuses
grandes e pequenos.

Mas, pai, não me tinhas
falado da morte,
isso esqueceste.

Não quiseste
ou não tiveste tempo
de me falares desses mortos,
juntos, talvez, à alguma lápide,
no campo, ouvindo os pássaros
ou confidencias do vento
nos ciprestes.
Teria sido tão belo e triste...

Vati, não me preparaste
para a Morte
e agora tenho medo.
O mundo que me deste
é belo demais
e temo perdê-lo,
mais que nunca.

Vê, Vati, estou pintando
e escrevendo ainda
os versos, pai, os versos
que me incitavas
para escândalo
ou preocupação
da Mutter.
Persisto, pois,
na nossa loucura, Vati,
naquele pacto que fiz nos teus joelhos
e que só nos dois sabemos.
Lanço agora, mais que nunca
nossa beleza querida
na tela
e no papel
e estou, Vati, portanto
cumprindo o nosso pacto.

Podes dormir, pois
sossegado,
velho médico, estancieiro,
sonhador,
pai desta Alma aqui,
apaixonada por homens,
e mulheres
mas que ainda é tua
criatura
e criadora orgulhosa
de nós, Vati.

Podes dormir naquele prado
onde não fomos juntos,
onde não ouvi os pássaros
e não sussurramos
rente às lápides.

Quiseste mostrar-me só a alegria
da beleza
e suspeitavas que a morte
não fazia parte dela,
agora vejo.

Tanto
que a Mutter tentou
nos prevenir
com sua catilinária
e aquele indefectível
“vale de lágrimas”!...

Mas, Vati, de onde estás,
ouves An Freude
a Ode à Alegria?
Há um reino de sombras, pai,
atravessado por aquele rio Letes
do esquecimento?

Bebeste de sua água?
Esqueceste-me, Vati?

______________________________


Nota de editora

A paixão de Alma por nosso pai nos comovia, a mim e a Rodo
(menos à Solange, que tinha ciúmes). Aliás tudo na Alma era tão intenso que nos paralisava, ou nos tirava o fôlego. Por isso ela viveu a sua curta vida como se fossem cem anos de vivências. (Lucia Welt)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Narcísicas (de Alma Welt)

NARCÍSICAS
(Poemas Sáficos de Alma Welt)



1

Cerco meu dia
de flores e canções
e aquele zelo
da hetaera ancestral
que vejo em mim
Banho-me enfim
na espuma que me envolve
e olhando-me no espelho
me desvelo
enquanto o cristal
só me devolve
aquilo
que a mim mesma
me revelo


2

levanta ó meu amor
o teu sorriso
deste leito sobre o dia
e suas sombras
percorre com teu passo
estas alfombras
e como eu
( se assim posso dizer )
reina o que é teu
com todo o teu poder
Se tens a veleidade
da renúncia
lembra então de Lear
que a razão, o reino
e o coração, perdeu


3

Como me alegro com o dia
que amanhece
e mesmo quando à tarde
ele se funde
pois que sou grata
pelas dádivas que fruo
o meu destino é belo
e mais ainda
porque assim o reconheço
ou o construo



4

A minha amiga é bela
e se desvela
de tal maneira
em torno desta vela
que sou, já que a atraio
sem querer
que temo até mesmo
que se queime
em mim
que estou ardendo
(não me pejo)
só de pensar também
o seu desejo


5

Vem, minha amada
e deita sobre mim
mirando teus mamilos
sobre os meus
desce assim assim
devagarinho
como Narciso sobre
o seu reflexo
até molharmos
nossos corpos num amplexo
que nos confunda
talvez
no mesmo espelho



6

Para cantar, pintar
ou escrever
lanço mão do prazer
ao meu alcance
mas nada se compara
ao maior lance
que faço
ao deixar-me pertencer



7

Minha amada me encanta
ao caminhar fluindo assim
sem hesitar
Que pés, que mãos
enfim, que perfeição
nascida com a função
de apaixonar
E eu, que outro tanto
me sei bela
posso entãoprostrar-me
diante dela
sem receio e orgulhosa
de assim tanto a venerar



8

Deita-te aqui
ó minha linda
e fica imóvel
enquanto a tarde finda
Deixa-me somente percorrer ainda
o teu perfil à contra-luz
e os teus seios
que em silhueta também sei-os
tão perfeitos
Deixa então
que minha mão resvale agora
tuas curvas, tão de leve
e tão suave
como roçam os minutos
sua hora



9

Ouço a voz do meu amor
que chega pelo elevador
e penso nessa voz
em como é linda
e como a conheço
tão de cor
Depois abro-lhe a porta
e ela me invade
por todos os sentidos
à vontade
pois sabe-me a volúpia
de servi-la
como a metade
serve
outra metade


10

Olhe Aline
espero a sua chegada
pondoa casa toda preparada
o leito perfumado levemente
e as minhas telas
cercando o ambiente

Você já sabe
como vou literalmente
devorá-la
como faço em minha mente

Quando chegar não quererei
nem conversar
me atirarei sobre o seu seio
e em seguida
vou ficar talvez mais atrevida

Só de pensar
eu tremo de emoção
e do vago receio que me possa
por capricho ou por orgulho
rejeitar


11

O meu prazer com meu amor
me é sagrado
e faz parte
de um conjunto ampliado
de amores e visão engrandecida
do que é Gente
do que é Arte
e do que é Vida
Procuro a alegria
(já se vê )
mas não renego a dor
quando fecunda
emanada do amor e sua procura
sua perda ou sua morte
tão profunda



12

Quando penso
nos amores que vivi
percebo que com eles
construi
com muita calma
o edifício verdadeiro
desta alma
como vigas, tijolos
e argamassa
e por fim a superfície
bem caiada
ostentando a minha face
na fachada



13

Vou te esperar
Aline
nesta noite
e pra isso me preparo
como noiva
um banho quente
para um pouco amolecer-me
e pôr-me lânguida
afim de receber-te
Este meu delírio de odalisca
me faz sorrir
e o desejo me belisca
Em minha mente construí
meu próprio harém
onde encerro o meu amor
e a mim também


14

Olha, Aline
não estou triste
estou furiosa
eu te vi nua
gloriosa
em viris braços e era tarde:
ele em riste
eu curiosa, tão covarde
Era um sonho
portanto era verdade
eu olhava e gemia
em tua delícia
Percebia
o membro que adentrava
e com ele
o meu desejo
que aumentado
pôs-me agora
o coração meio nublado



15

Meu amor e meu tesão
ó minha Aline
durará enquanto
deles eu fruir
sem possessão
pois
quando rondo à noite
sem temores
tua cama, aurindo
teus odores
sem a sombra dos ciúmes
me inebrio
com a mistura que percebo
de perfumes



16

Percebo, Aline
que um dia vou perder-te
por culpa desta mesma
solidão que faz-me amar-te
Cortejar tua beleza
só faz parte
desse mesmo ritual
de contemplar-te
sempre e sempre
ao espelho desta arte
de amar meu próprio amor
em seu contraste



17

Podes deitar-te, Aline
com quem queiras
se te deres assim tão generosa
Se estás comigo por beleza
talento ou fama(coisa honrosa)
continuo a querer-te, minha jovem
interesses assim
só me comovem



18

Sim, Aline
sou romântica
e percorro
as ruas em morro
deste bairro tão diurno
passeando a solidão
lago noturno
sob a lua
de um céu estrelado
como um véu entre montanhas
ou ainda à margem
de um regato
noutro tempo mais ameno
e mais pacato


19

Beijo-te os lábios
amor
até o sangue
e quase o fôlego roubar-te
Como posso conter-me
e não beijar-te
sem demora
olhando tua boca
obra de arte?
A perfeição existe
e mora aqui
um tanto em ti
um pouco
em mim
Como isso é louco!


20

Se amares alguém
mais do que a mim
aí sim, Aline
vou sofrer
não do medo de perder-te
mas da perda já sofrida
pois que fui na tua balança
interna, excluída
por um peso maior
que a minha vida


21

Quero gritar ao mundo
o meu desejo
pois que igual ao meu amor
assim o vejo
em meu espelho
tão ardente e escabroso
como a arte
amor e gozo
em toda parte

FIM

09/02/2001

terça-feira, 8 de janeiro de 2008


A banda Risses apresentará de novo o seu maravilhoso show, o dia 12 de Janeiro de 2008, lá no clube Caiubi, no Vila Teodoro, na Teodoro Sampaio 1229. Entrada Cr$5,00.

ESTE POEMA DA ALMA WELT FOI MUSICADO pelo vocalista da banda RISSES, JOÃO ROQUER, e abre o show TERRA DESCONHECIDA que estreou com grande sucesso no dia 14 de dezembro de 2007 no CLUBE CAIUBI, na RUA TEODORO SAMPAIO 1229- Pinheiros.


QUISERA UM JARDIM


Quisera um jardim
sob um balcão
até onde a vista
encontra
o muro necessário
à mesma vista
repleta como com
a braçada de flores
que então chega
numa manhã qualquer
com um cartão
fugaz
e a escritura
pelo apuro
desfaz
cor e textura
ao próprio muro


ALMA WELT


http://bandarissesterradesconhecida.blogspot.com

Poema digital para Andrea ( de Alma Welt)


Capa do folheto Poemas à Andrea, publcado dentro de um kit pela Edições do Pavão Misterioso

Poema digital para Andrea

( Alma Welt)

Mulher que escreves
teu nome sob doces declarações
e ardentes carícias virtuais
amando um rosto
e um corpo que não viste
e que talvez nem imagines
em teu claro coração,
que prodígios de amor,
que sede encantada, que toques
a pele da alma
desta Alma!
Ouves de longe meus gemidos
como um surdo minuano
soprando forte
não gelado
mas aquecido pelo coração?

Eu te visito à noite
em teu leito solitário,
afasto com cuidado
a triste cachorrinha
(que lentamente se vai),
para deitar-me
trêmula ao teu lado
nua como tu no teu leito
de verão paulistano,
que venho nua do longínquo Sul
e não posso nem quero
carregar roupas sobre mim
em nosso ardente sonho nu
compartilhado.
Esperas-me nas noites
pois sou “a gostosa da Internet”
conforme teus gaiatos colegas de trabalho
e quem sabe
jocosos amigos
carinhosos
que te querem o melhor.

Tudo me deleita.
Como não sorrir para a beleza disto tudo
se o amor continua raro e fomos bafejadas
insolitamente, no doido mundo digital?
Espera-me nas noites
Andrea
Espera-me na pequena tela
que lá estarei nas ardentes noites
de tua insônia molhada
que me ofereces
dadivosa
como eu a ti.

Quem poderá deter-nos
em nosso deitar e rolar
se somos livres como não se pode
imaginar
pois que não há testemunhas possíveis
dos “obcenos detalhes”
salvo um imponderável haker
do futuro
que invada o disco rígido
onde lá, no fundo,
ondulam os discos flexíveis
das nossa colunas vertebrais
no jogo amoroso
eternizado nos circuitos
do grande casarão virtual
da máquina
um dia uma sucata
que conterá nossos segredos.

Comoveremos o mundo
um dia, Andréa,
o mundo digital e virtual
ainda mais futuro
mas que porventura saberá
verter lágrimas
pela beleza...
e pelo infinito gozo do amor .
01/01/2006

sábado, 13 de outubro de 2007


Devaneio- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1991, 50x60cm, coleção Nina Assumpção de Faria, São Paulo, Brasil

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Prefácio de Guilherme de Faria aos Poemas da Alma, de Alma Welt

PREFÁCIO aos “POEMAS DA ALMA”, de Alma Welt

Conheci Alma Welt, há um ano, na primavera, quando, tendo tomado conhecimento do espantoso anagrama da grande gravadora Renina Katz, uma amiga comum, feito por Alma, e tendo ouvido falar de seus dons de interpretação, resolvi procurá-la, para que desvelasse o sentido de um determinado sonho enigmático que tive. Ao abrir-me a porta deparei, para minha surpresa, com a beleza verdadeira ( e isso eu não poderia deixar de mencionar, mesmo em se tratando da apresentação de uma artista, pintora e poetisa, como ela não tem problema em definir-se). A beleza da moça, portanto, em seus quase metro e oitenta de altura, distribuídos com doce harmonia, cabelo louro natural, rasgados olhos verdes e pele muito alva, impõe-se de tal maneira, que me obriga a essa descrição, pois do contrário eu pecaria por omissão ou hipocrisia. Além disso, o que mais me encantou foi a doçura da sua voz e a harmonia dos seus gestos ( ela me contou que conseguiu unir duas escolas opostas: o ballet clássico e a euritimia antroposófica, em sua formação desde criança.
Tenho, pois, a tendência, sempre que penso nela, em deter-me em seu aspecto físico, a despeito da impressão igualmente forte que me causou sua arte. Pintora soberba, quando vi suas obras em seu ateliê, quase abandonei os pincéis. Mas foi a sua poesia, singela, simples, verdadeira, apaixonada, que acabou de me derrotar. Intuitiva, mas também sábia, ela evita as metáforas de linguagem, mas não de sentido, usando uma expressão direta, quase coloquial, em seus poemas, destacando o peso das palavras, com o recurso simples, contemporâneo, de isolá-las no verso, evitando qualquer pontuação, de resto desnecessária. Não é, portanto, nisso que consiste a sua originalidade, visto que é recurso conhecido e sobejamente usado na poesia contemporânea. Mas é a extraordinária autenticidade de sua inspiração,( aqui vale recordar Nietzsche: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas.”), sua espontaneidade e sobretudo a intensidade de sua paixão, que a destacam no cenário poético atual, a meu ver. Alma Welt pertence à estirpe das grandes amorosas, como Florbela Espanca e a grande Safo, que não se pejam de cantar o amor e a paixão, com lirismo rasgado, incendiadas às raias do “patos” e da obsessão.
No entanto, ao contrário da célebre portuguesa, Alma Welt não abre mão de um equilíbrio interno em sua persona poética, uma serenidade e uma harmonia quase orientais, e nisso ela difere muito da outra.
A feminilidade ostensiva do seu toque cotidiano, não chega a nublar a essencialidade, esta sim, universal, de sua visão, que beira o filosófico em certos momentos.
Estou encantado, já se vê. Como artista plástico que sou, já a elegi, naturalmente, como musa e ponho-me a ilustrar os seus livros, embora seja ela própria pintora e desenhista, também. Criei a seu pedido, o seu Ex Libris, requinte em desuso, que haveremos de ressuscitar. Tenho em minha cabeceira seus três livros de contos que me encantam cada vez, mais à medida que os leio e releio, pela sua surpreendente graça e fluência; e o seu primoroso primeiro livro de versos, este POEMAS DA ALMA, que aqui, me honro de apresentar ao público neste prefácio inusual, despudorado talvez, em seu entusiasmo. É que, depois de muito tempo, vi-me novamente em face da Beleza, tal como eu secretamente sonhava, para uma mulher e sua poesia.

São Paulo, 20 de Novembro de 2002

GUILHERME DE FARIA

Ode a Leonardo Da Vinci


Perfil leonardesco de Alma Welt- lithografia de Guilherme de Faria


( Poema de autoria de Alma Welt, escrito aos dezesseis anos de idade)


Antigos apelos se perderam no tempo
Continuamos sós, na solidão...
As planícies se erguem num vôo de águias e de corvos,
Uma floresta de punhais recorta o espaço.
Mas algo nos enfraquece ainda,
Dispersos sob o sol desconhecido e agônico.

Os continentes se cobrem de couraças,
Que já sobrevivemos à Beleza,
Que nossa dor persiste.

Messer Leonardo da Vinci, mestre e pai,
A tua voz lançada nos espaços do Tempo
Chegou até nós, embora ainda indignos,
Mas de antemão redimidos pela tua força.
Todavia, falo por mim só,
Solitários que estaremos sempre...

Em sonhos e delírios sou a discípula bem-amada,
De cujos olhos, dia a dia, intensificas a luz
E a cujo ouvido murmuras sonhos loucos.

Sou a discípulo dileta, renascida e pura.
Sou tua procura, teu silêncio,
A nobre curiosidade em teus sentidos,
A tua casta barba afagada na concentração,
E a tua poderosa e alva mão que afaga e cria.

Perdoa, Mestre. Não te amei de um perfeito amor:
Como Beltraffio, temi os teus poderes
E a tua sabedoria perturbou-me a alma.
Eras, em verdade, o mago, o bruxo, o grande Alquimista.
Cavalgastes nas noites proibidas,
Rumo ao Sabat dos deuses mortos.
Conhecias a Noite e talvez fosses seu mestre.
Terias transmutado os metais,
Imenso criador de ouro que tu fostes.

Nas cidades anoitadas sei que pairas.
Às vezes suponho avistar a tua barba anciã
Novamente transmutada no ouro da tua sábia juventude,
Como um periódico cometa no céu da minha alma.

Mestre, também estou só, procurando na Terra
Enquanto procuras no Infinito
Aquilo que já era teu, pois fostes verdadeiramente belo.

Ama-me ao longe, Mestre, e dá-me a tua benção.
Desde a Morada dos Sábios e dos Altos, dá-me a tua benção.

Aqui, nos ossos da feroz maquinaria,
Algo do teu amor lateja e subsiste.
Algo da tua estranha fé renova-nos a face
Consumida nos grandes estrépitos modernos.

Perdoa, pois, ó Mestre, o que fazemos da tua voz.
Distante a discernimos e a amamos sempre,
Embora não saibamos responder.

FIM

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Pampa de Alma Welt


"O Pampa de Alma Welt"- óleo s/ tela de Guilherme de Faria de 30x40cm, coleção particular, São Paulo

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Rosto (de Alma Welt )

É sempre um rosto que amamos
O brilho no olho
a tristeza
um sorriso
uns lábios que queremos beijar
ou calar
com os dedos
É sempre um rosto
não uma palavra
não a fala desses lábios
nem sequer a marcante
personalidade
ou temperamento
Mas um rosto, um rosto
é sempre um rosto que nos apaixona
e levamos conosco na alma
para o leito solitário
para o prolongado exílio
para o túmulo

Memória das memórias
um rosto
o barbado rosto
de Deus
ou aquele outro de passagem
uma tarde em Veneza,
mesmo
numa simples rua Girassol
ou mais prosaicamente
na Fulano de Tal
no Centro da enorme
e triste metrópole
logo iluminada
É sempre um rosto que nos apaixona
e levamos conosco
para o túmulo

Memória das memórias,
Um rosto outrora
“ lançou ao mar mil navios”,
é sempre um rosto que lembramos
um trágico rosto
que nos compunge
ou nos oprime
ou ainda aquele adorável
de criança
congelado em graça no Tempo
É sempre um rosto
um riso
um ríctus
uma súbita amargura nos cílios
na boca
no cerrado maxilar
Um rosto é o que amamos
um determinado rosto
mais que todos os outros
é o que adoramos
e levamos
indelével
intacto
imune ao tempo
nas retinas da alma
Um rosto
para alguns o corrosivo
rosto de Dorian
para outros, um enigma
um sorriso de Monna
Um rosto é o que elegemos
ou que nos cabe
É sempre um rosto só
o que amamos

23/04/2006

domingo, 16 de setembro de 2007

Poemas da Alma (de Alma Welt)



Capa do folheto de autoria de Guilherme de Faria, publicado pelas "Edições do Pavão Misterioso", representando "Eros e Psiqué", em que esta é um retrato da própria Alma Welt, e para o qual ela posou, quando ela e o pintor se conheceram em 2001.
1

Na penumbra do claro ateliê
ao entardecer
me encontro
só e grata
toda uma vida
tantas vidas
percorrem-me o olhar de dentro
ao som
de um piano ausente
intermezzo
vindo de tardes outras
tristes e fecundas
como esta pequena imagem
miniatura
de minha solitária vida
de pintora
plena


2

Espero (meu coração admite)
uma inesperada
e oportuna visita
Sempre espero uma visita
redentora
Meu coração
metáfora impenitente
aguarda o renascer
moto perpétuo
de um amor
de muitas faces

Porquê essa multiplicidade
Se o verdadeiro amor é único?
Boa pergunta


3

Estendo a mão
ao acaso
encontro sempre um pincel
um livro, uma caneta
não posso
me queixar


4

às vêzes
muitas vêzes
rodopio eufórica
neste meu pequeno salão
improvisado
de paredes derrubadas
de apê anódino
agora encantado
pelo meu próprio
toque
eternamente
entusiasmada
Graças.


5

Quem me seguirá
aos píncaros
que a minha alma atinge
em seu próprio universo
construído
à custa desta fé invencível
no dom desta arte
que me coube
secreto merecimento
do qual
só temo o orgulho?

6

Ser mulher em meu corpo
mais do que em minha alma
universal
como todas
este o meu prazer e orgulho
que molda este mesmo corpo
com secreta perfeição
visível em parte
pleno para os meus amores
glorioso em sua intimidade
de quatro paredes
e amplo leito


7

Quisera um jardim
sob um balcão
até onde a vista
encontra
o muro necessário
à mesma vista
repleta como com
a braçada de flores
que então chega
numa manhã qualquer
com um cartão
fugaz
e a escritura
pelo apuro
desfaz
cor e textura
ao próprio muro


8

Olho em torno
e constato
ter construído aqui
sem um adorno
no espaço limitado
que me coube
meu reino de prazer
insuspeitado
de livros
e de telas só
cercado


9

Retorno sempre
ao eixo da criação
ao lugar
sagrado
da última inspiração
há quem não creia
nisso
de inspiração
eu sim
nada é nosso
tudo vem dos deuses
e meu orgulho
é ser a sua boneca
entre outras tantas
nem tantas assim
prediletas


10

Hoje ponho um vaso
com flores
onde retirei os pincéis
eles não se excluem
é claro
flores e pincéis
O visitante
de hoje
sucumbirá
à sutil armadilha
cruzo os dedos
supersticiosa
e boba
que sou


11

Homem
que deitas comigo
teu corpo primoroso
que nem sequer
escolhi
fui sorteada
entre os deuses
e és um deles
maroto
cheio da malícia
ingênua
dos olímpicos
e como eles
um laivo de crueldade
escondida
de ti próprio


12

Pode o coração
pedir mais
que amar amar
e ser amada
mui naturalmente?
o mui se impõe
vindo de longe
coração português
alma alemã
minha sede é antiga
dos dois lados
e aqui deságua
em ânsia
nunca saciada
de amar e amar
e ser amada


13


Resvala
a noite
sobre este dia
glorioso
nada pode
apagá-lo
meu amor
voltou
quero gritar de alegria
o meu amor
nas altas horas
do dia
da noite
do dia


14

Lanço sobre o papel
o desenho
inusitado
possibilidade sem fim
magia pura
nunca esgotável
alguma prestidigitação
coisa de maga
bruxa verdadeira
arte é isso
milagre
atrás do truque


15

Levanto-me
todo dia
cantando
de alegria
estou viva
estou amando
querem mais?
estou sonhando
até escrevo
sem querer
rimando
alegria mais profunda
que a dor
disse o mestre
sempre soube
e com lágrimas
a saúdo


16

Quem negará
o único tema
que vale
a pena?
quem levantará
a voz
contra o amor
“que reparte coroas
de alegria”?
estou viva
e espero
o meu amor
chegar
em breve
fecho os olhos
e canto
para esperar
o meu amor
tudo assim
simples
como a poesia


17

Quero ter o timbre
de um acalanto
para o meu amor
quando se deitar
cansado
a mais doce melodia
brotará dos meus gestos
quando ele cerrar os olhos
nos meus braços
seguro do meu amor
poderá
sem medo
adormecer


18

A tela branca
me convida
me instiga
espaço obscuro
terra de aventuras
montanhas
a escalar
mares navegáveis
talvez hostis
todas as terras
e alguns astros
tudo ao meu alcance
nada garantido
alguma dor
como a vida


19

Basta-me
a voz
e o cheiro
peculiar
do meu amor
para o desencadear
da poderosa máquina
das células
do afeto
feromônios
dizem
os cientistas
poetas que eles são
involuntários
sua visão
então
me nubla
e a embriaguez
se instala
irrevogável
tomo porres
do meu amor
bebedora impenitente
nada social
não buscarei
Amor Anônimo








ALEGORIAS DA ALMA
1

Tantas ânsias
outrora
apaziguadas
agora
somente o meu amor
no entanto
se compara
à busca dessa arte
que me espanto
ao constatar
de mim
a melhor parte.

Volto ao centro
de tudo
que formou
a face desta sina
e comandou
a razão
a vida, forma
e conteúdo
sofrendo de amar tanto
amando tudo
sobretudo
a beleza
e tanta arte
das quais os próprios deuses
fazem parte


2

Carrego
dentro em mim
secreto arquivo
de minha rica vida
espelho vário
de alguns grandes amores
com seus gestos
guardando seus temores
num armário
roídos pela traça
de uma angústia
que o coração perspassa
como sombra
apenas vislumbrada
na vidraça


3

Ouço ao longe
Uma flauta
e um latido
que uma imagem
arcaica
reconstrói
sua forma
permanece
no mármore
que o tempo
apenas rói
laica
no friso
um pastor
e seu cão
onde o latido?
não temos mais
a chave
e o sentido


4

Só temo
a voraz
sanha
das horas
o delicado corpo
devastando
conquanto vai
a mente
acrescentando
tributos da memória
e seu tesouro
perene talvez
embora envolto
em cada vez mais triste
pano roto


5

Não pedirei ao tempo
seu retorno
nem ao amor perdido
seu perdão
não ao remorso
não ao tédio
muito menos
do triste ócio vão
o desperdício
mas sim às incertezas
deste ofício
sim às lágrimas
de dor e de alegria
tão fecundas
tão doces se colhidas
no grato coração
por toda a vida


6

para acolher o meu amor
construo
um cenário de ouro
como igreja
uma taça dourada
sobre a mesa
paramentada então
em meu ofício
sem um sermão
nem mais fiéis
senão eu mesma


7

Desço ao jardim
das horas
tão só minhas
buscando pensamentos
de beleza
sou tão fiel a ela
com certeza
que me vejo qual
sacerdotisa
Vestal
virgem em minh’ alma
obstinada
cultuando minha deusa
destronada


8

Faço a mala
jogando meus cadernos
desenhos e poesias
sobre as roupas
levo também
lembranças
que não poucas
encheriam
malas e mais malas
Esta
a minha bagagem
declarada
Tão leve
e ao mesmo tempo
tão pesada
que temo
até mesmo
ser barrada


9

Amanhã serei
mais sábia
com este dia
transcorrido assim
intensamente
como pode o ser humano
inteligente
envelhecer talvez
triste e doente?
mas bato na madeira
quando penso
naquele inesperado
fim demente
de Nietzsche
Maupassant
Artaud
Van Gogh
e toda aquela gente
tão brilhante
que fica iluminando
eternamente


10

Hoje desperto
ao som
de um violino
e a melodia
sugere o privilégio
e a ironia
que cerca
o meu destino
tudo conspira
na manhã
arte e carinho
até este tão vago
meu vizinho


11



Volto à casa paterna, comovida
onde a alma e o coração nasceram,
aparentemente, nesta vida,
conquanto ecos ainda mais longínquos
julgo escutar ao fundo, estarrecida

olho as paredes, lombadas nas estantes,
retratos e poeira tão constantes
e um piano mudo expectante
de mãos habilidosas já ausentes

quanta tristeza, que noite persistente
atravessa o casarão demente!...
murmúrios e o correr das lágrimas
do pranto e o ranger de dentes...

contudo, na casa impregnada
uma carga de ausência renitente
que o coração martela ao pé da escada...

no hall, no labirinto,corredores,
jogo eterno da alma em seus temores,
buscando o leito de dossel materno,
o berço ao lado, o cortinado branco
ondulando ao vento como por encanto...

quero deitar de novo neste berço
quero dormir ouvindo o acalanto
e retornar ao mundo do sonhar primeiro,
afugentando o sono do espinheiro
pra ter de novo a casa que mereço
e ouvir de novo aquele canto...

no hall, no labirinto,corredores,
jogo eterno da alma em seus temores,
buscando o leito de dossel materno,
o berço ao lado, o cortinado branco
ondulando ao vento como por encanto...

21/11/2005




12


Tenho estado
a sorrir
na intimidade
não
frente ao espelho
na verdade
conquanto isso se passe
distraída
percebo
o movimento
não na face
mas neste coração
que transbordante
espera a hora
e o sabor
da saciedade.

Ele virá
é quase certo
e esta esperança
já põe
nestes meus lábios
esta dança.


Pensando nisso
dançarei
afasto os móveis
rodopio
neste espaço
generoso
e imaginário
eu sei
em que me fio.


Quanta emoção
quanta ventura
antecipada
numa simples
aventura
imaginada!

Tanto mais
que me apercebo
consolada
que se ele não vier
não perco nada.


13

Ponho um CD
e a música
fantástica
toda uma ópera
invade o meu apê
Delibes
Lakmé
“où va la jeune hindoue”
e vou com ela
tinindo a campainha
que a vela
o tigre afastará
e Vishnu embala
que a filha do pária
o encontrará

E vejo ali
a minha vida
frágil
como a pequena hindu
com seu sininho
que abre numa selva
o seu caminho
que é a minha arte
tão modesta
no mundo
vasto
como essa floresta


14

Para encantar
o meu amor
me rendo
sincera
ao seu viril encanto
não tentarei domá-lo
com meu canto
muito menos
ao seu falo
montar guarda


Não cercarei o espaço
do guerreiro
como uma ninfa
produzindo ecos
não rondarei atrás
pelos botecos
não lançarei Narciso
em seu espelho


15

“Se queres
desenhar
fecha os olhos
e canta”
disse o mestre
Picasso
o que me encanta
e me apercebo
que o contrário
também
é verdadeiro
quando quero
cantar
mesmo um bolero
pego o lápis
e o papel
primeiro


16

Minha vida
é um cântico
profano
e cheia de alegria
sem engano
encontro no
amor cotidiano
as pequenas coisas
não mesquinhas
que contam
quando a morte
se avizinha

Mas pintura
boa música
ver e amar
a deusa Plitseskaya
embora em vídeo
um canto de Elomar
coisas assim
poderosas
e sagradas
para mim
estão ao meu alcance
grandiosas
fazendo-me sentir
em minha corte
da alma
recebendo
o jovem Mozart


17

Pintando a tela
esperarei
o meu amor
ainda
que não venha
da jornada
não desfarei
do dia
a pincelada
conquanto
já me encontre
tão cercada
Quando chegar
se ele chegar
dos seus cansaços
terei um quadro
uma canção
e ainda
o trono
dos meus braços
aguardando
o seu retorno


18

Não me importa
que o mundo
tenha pressa
não tendo olhos
para o andar
desta poesia
o ser poeta
não comporta
garantia
e apesar
da aparente provação
ao próprio mundo
devo toda
a inspiração
As aparências
quase sempre
comezinhas
escondem o fulgor
de jóias raras
escondidas
em casas
tão vizinhas


19

Como criança
que fosse
o coração
resguardo
não guardando
nenhum
ressentimento
só quero
erigir-me
em monumento
à minha própria
e expontânea
alegria
que consiste
em amar
tudo o que existe
e cantar
o valor
cotidiano
do tão controvertido
ser humano
mas em mim
em mim
que o represento
deste ponto
de alma
em que me assento


20

Para tornar
a minha vida
bela
não mais acenderei
nenhuma vela
não farei promessas
que não cumpro
não conjurarei
deusas ou numes
através de preces
ou queixumes
Mas cantarei
através da minha arte
a alegria
que encontrei
e a poesia
de estar viva
sempre
em toda parte
com este imaginário
como guia


21

O mundo
é Maya
no entanto
certezas
várias
como fortes
correntezas
me trouxeram
a esta praia
de mim
tão solitária
Certeza
do verso
a necessidade
extrema
e da pincelada
a exatidão
velada
Desenhar
pintar
escrever versos
que valham
o que sofremos
ou amamos
este o sentido
supremo
da jornada
“a Arte é tudo
o resto
é nada”


22

Homem fútil
que te esfalfas
por
uma firma
um papel
ou uma venda
e quereis passar
esse legado
de sofrimento
tédio
e esforço vão
aos teus
rebentos
devias saber:
nada disso
é importante
e nada
fica
senão
a lágrima
derramada
que se cantou
ou o sorriso
indefinível
mas pintado
com destreza
como o fez
mestre Leonardo
A vida é breve
a Arte
longa
Da humanidade
presta
o que resta.


23

Renovarei
o meu alento
se puder
como
Van Gogh
O talento
faz
o que quer
o gênio
faz o que pode


24

Através
dos livros
tão queridos
tenho todos
os mundos
ao alcance
De todas
as viagens
tenho
a chance
e as lágrimas
do herói
banham-me
inteira
Mas volto
ao casarão
da minha infância
e ouço
os gemidos
da porteira
Desço
ao porão
da casa
adormecida
e escondo
meus tesouros
comovida


25

Renovo
Todo dia
meus votos
de alegria
e fiel
á Arte
que me guia
incito a alma
e o frágil coração
ao bom conflito
co’ a tristeza
e a vaga nostalgia
que ronda
o quarteirão
insidiosa
e fria


26

Se Deus
me deu
a Arte
é clara
minha missão:
lutar
o bom combate
ao feio
e à depressão
O mistério
no entanto
é a contradição:
o belo
engloba tudo
o cômico e o
grotesco
num saco
gigantesco
de aparente
confusão


27

Quando volto
a rondar
a macieira
do velho pomar
do casarão
percebo
o atavismo
desta cena:
remontaria
à Eva
e ao Adão?
porque
se estendo logo
a mão
ao fruto
luzidio
que ali pende
em desafio
uma ligeira culpa
me suspende
ali também
a alma
e o coração


28

O homem
que me abraça
todo dia
surpreso
com este livro
de poesia
conhece
este meu corpo
como a palma
e pouco
na verdade
desta alma
Dou-me a ler
pois
esta funda
exposição
ultrapassa
a oferecida
posição
da mulher
feliz em seu doar
com suas pernas
bem erguidas
para o ar


29

Tenho ânsias
e vôos
em minh’alma
que me espantam
a mim mesma
todavia
pode haver
maior contradição
ó alma aventureira!
ó coração
varado em nostalgia
que canta
e chora
como a Mouraria!


30

Às vezes penso
que vou
literalmente
explodir em alegria
amor
ou entusiasmo
Por que sou
assim
como um orgasmo
ambulante
e absurdo
em minha mente?
Percebo pois
naturalmente
que isso
não se passa
em muita gente
Mas antes
de qualquer diagnóstico
de um possível
médico
pernóstico
devo lembrar
a mim mesma
a natureza
dupla
feliz
e mais completa
de pintora apaixonada
e de poeta

Poema da Claridade (de Alma Welt)


Capa do Poema da Claridade publicado em forma de folheto pelas Edições do Pavão Misterioso.

Poema da Claridade

Clara, clara, clara
como champanhe
borbulhante do teu riso
nas ardentes noites do verão passado
Claro como o corpo nu
teu espaço claro de emoção
lágrima clara de legítima dor
de amor e de saudade plena
Clara, clara, clara,clara
como uma aurora
aquela da tua confissão maior
da tua entrega
e fantasia
Clara manhã
afinal retornada
puro lapso da língua
no jogo das palavras
quando o coração
cansado de oprimir
laceia, cede e sobe
claro, claro,claro,claro como aquele
dia, aquela noite e sua euforia
inesquecível
como o traço perfeito
de um desenho perdido
lembrado sempre e sempre
como a tez
como o sorriso franco
nunca dúbio
dos dias felizes
Claro, claro como amantes
por instantes
que nada pediram
Aquela ninfa
aquela outra negra e viva
como uma rainha
de sua própria e clara noite
claro amor
clara intenção de amor
que deita sementes
aos pés da amada
clara, clara, clara,
dívida de alegria
fonte do
claro reconhecimento
tua poesia
das noites claras como um ré
um mi
um lá
sem hesitação
escolhida nota na canção
de tua boca clara
onde o carmim
o sangue
não tenham fim nem começo
como a alma
plena sobre o dia
sobre a noite
como uma espiga
de puro trigo
clara em teu ventre
alta madrugada clara
de paixão
quando não foste
e tendo ficado
deste-te inteira
e sem reservas
Clara, clara,clara
a vida que me retribuíste
quando te salvei
de um sonho mau
e puseste teu braço ao meu redor
naquela ardência clara
que ainda vejo
e reconheço
primeira e clara comunhão

Longe canta o pássaro
a clara nota
que me faltava
Clara, clara, clara inspiração
fugaz
claro instrumento que produz
um anjo
uma canção
o desenho
o poema claro
de nobre intuição insuspeita
como um sonho
como a vida que escolhi
das minhas veias
manhã de renovação
noite clara de redenção
erótica, clara
como o sangue e o esperma
sobre a sagrada cama
do assumido amor
do assumido veio
de um desejo incontido e claro
Clara, clara, clara,
missão do artista
certeza nunca desmentida
sem perguntas
sem medo, sem
a triste e feroz autocrítica

Lanço os dados
do destino,colho
as espigas trêmulas da alegria
onde outros talvez
hesitem
na angústia e medo
incompreensível

Clara, clara, clara harmonia
de um destino aceito
de uma carta
recebida
contendo a resposta
à clara pergunta
formulada alhures
noutra parte da vida

Amor, gozo, engenho de viver
pura criação
escolha sem fim
meta verdadeira
eixo da criação
legítima missão nunca renegada
clara como o instante
de recolhimento
e dor, junto à lápide
do verdadeiro amor de uma vida
escolhida em claridade

Onde a sombra, a dúvida
a penumbra talvez necessária
o vago receio
o medo mesmo? perguntareis
Eu digo clara
a idéia, luta
a inocência de escrever
pintar e cantar
sem peias
e dar a ler
a ver, a escutar
Clara pulsão
e resultado
sem amarras
longe todo o tédio
maldição do tédio
sua desdita, sua astúcia
sua mal disfarçada malícia

Ouve,amor
Ouve o rumor claro
dos passos decididos
numa noite clara
de amplidão e inocência
claro privilégio
da mente limpa
afinal
escolhida claridade
redenção, pureza inata
do paraíso interior
em sua tênue senda
encontrada
não por acaso
mas
por clara, clara
e pura intenção
de claridade.

FIM

segunda-feira, 10 de setembro de 2007


A poetisa-pintora (desenho de Guilherme de Faria para o qual Alma posou em seu ateliê em São Paulo, em 2001)

Pampa (de Alma Welt)


Capa com desenho de Guilherme de Faria do folheto Pampa, publicado pelas "Edições do Pavão Misterioso, dento do Kit Poemas da Alma


Até onde a vista
alcança
eu percorri este pampa
em minha infância
e solitária
primeira juventude

Quantos vôos
quantas cavalgadas
(mesmo as que nunca fiz)
pertencem a esta memória
plena
de campos, árvores
e canções.

Fandango da alma
mate da memória
eu vos saúdo, lembranças
minhas
eternas, deste sul.

Acompanhem-me o passo
vamos em direção à grande árvore
macieira ancestral
onde gravei nossos nomes...)

Rudolf, Rudy
depois Rodolfo, Rôdo
e Alma
assim enlaçados nossos nomes
no profundamente gravado
coração.

Como corria estes campos...
o pampa
que estava ao meu alcance
embora limitado
pela vigilância invisível
de um olhar
internalizado
de que mal me dava conta...
A saia, um tanto comprida
às vezes arrepanhada
para saltar pequenas valas
um avental, eu me lembro
e sapatos absurdos
de verniz
sujos de terra.

Ai, Rôdo, só tu sabias
minhas trilhas
meus segredos
pequenas descobertas
contigo logo compartilhadas
como as tuas
comigo.

Universo mágico do nosso pampa
sombras dos galpões,
feno, ferramentas
e mantas de charque
cercando minha memória...

Peões, peões
ruído estridente de esporas
e surdo
de bombachas
cuias, bombas
o mate
assim correndo
nos lábios e canções.

Homens, machos
grandes costeletas
e bigodes
que me atraiam mais
do que o devido
não obstante o medo
atávico
do bicho homem
ameaçador.

Ai, quanto perigo
despercebido
devo ter corrido!...
Pequena fêmea,
bela, sim
que eu era
cheia de emoção
e de candura...

“Cachos Louros”
me chamavam
a guria do patrão
a chinoquinha
diziam baixo
entre eles
ouvi um dia.

Memória, memória,
sonho, saudade e sonho
perdida para aquela infância
nesta terra de cimento e vidro
feia e terrível
onde me encontro agora
mas sempre
estranhamente atraída,
meu destino...

Ah! pudesse eu voltar
e correr contigo, Rôdo
de mãos dadas
atrás de algum segredo
como de uma borboleta
um potrinho
uma vitela,
sem medo, sem
ameaça
inocentes como no paraíso
antes do fruto
e da serpente;

Reentrar no casarão
avarandado
cercado de flores
como a barba grisalha
depois branca
de meu pai
atraída pelo piano
que tocava
com os dedos delicados
de artista
o velho cirurgião!

Colocar-me debaixo do piano
olhando o movimento
imponderável
de seus pés
nos incompreensíveis
pedais
depois subir
olhar as suas mãos
e os seus olhos
concentrados
que me olhavam então
maliciosos
com uma piscadela cúmplice.

Ah!, Vati,
criaste-me
junto ao teu piano
ao pé das estantes
abarrotadas
dos maravilhosos volumes
que me abrias
nos joelhos
apontando as figuras
Destes-me o mundo
não somente
o pampa.

Como posso
alçar-me,
deixar estas salas
estes quartos, estas varandas,
cercadas destes pampas?

Como posso chegar
verdadeiramente
ao mundo
que me mostravas
nos teus livros
se a saudade
me ancora nesta Infância?

Como distanciar-me
e percorrer o mundo
como me querias
sem nostalgia
e sem a companhia
da indesejada
melancolia
Sem os ecos
dos galpões?

Teu grande piano negro
Vati
me chama ao passado
quando me debruçava
sob ele
com as mãos apoiando
meu queixo
os cotovelos no tapete macio
que ali punhas
somente para mim...


E tua biblioteca, meu pai
que eu imaginava fazer sombra
à de Alexandria
que me contaste ter sido
queimada por um fanático
e na minha alminha perplexa
isso tinha sido
ontem.

Vati, mostra-me novamente
as gravuras de Doré
para a Divina Comédia
assustadoras
e a Bíblia, e o Don Quixote
Pantagruel, Gargantua
O Paraíso Perdido
Vati, que me mostravas
quando eu ainda não alcançava
as estantes
e sucumbiria
ao peso dos volumes.

Vati, como assobiavas bonito
a Aurora de Beethoven
e a Apassionata
e ainda a Élègie de Massenet!...

Como poderei, Vati
distanciar-me?

Espremo os tubos sobre a paleta
lanço estes versos no papel
e as tintas e as palavras me remetem
à nossa estância
que ainda está ali
como um fantasma
navegando
na amplidão do Pampa.

Como uma nave
o casarão batido pelo minuano
recusa-se a afundar!

11/11/2003

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À minha mãe, Ana Morgado Welt (de Alma Welt )


Mãe, perdoa
tu fostes para mim
um problema...
Lembro de ti
e busco na memória
os melhores momentos
e o que sobrou
de ensinamentos...

Ainda tenho os pés na terra,
mãe
graças a ti.
a pontinha, pelo menos,
que sempre quis alçar-me
e tu me deste somente
sapatilhas de balé.

Teus pés tão fincados na terra,
teus conselhos prosaicos
e as sempre presentes advertências
que me fazias
de morrer à mingua na poesia...

Mãe, perdoa.
Como boa burguesa que tu eras
citavas sempre os malditos
que acabaram mal
na pintura
e na sarjeta:
Van Gogh
Gauguin
Modigliani
e alguns poucos outros
(Anima-possuídos
depois eu soube...)

Mas não citavas
os olímpicos
que tiveram os reis
a seus pés:
Picasso, Rivera,
Matisse, Chagall
(Sem contar Dalí, que
este é que se ajoelhou
aos pés de um rei)...

Ou aquele jovem Rafael
que morreu cedo
em glória, chorado pelo Papa
e ainda
o centenário Ticiano
em seu palácio
em Veneza
com o porno-poeta Aretino
como secretário.

Não, Mãe
não citavas o grande Leonardo
que morreu nos braços do rei
de França
proclamando imensa honra.
Tampouco citavas Goethe
morrendo em seu leito
que imagino imenso
cercado de seus amigos
quase tão célebres
quanto ele próprio
e pedindo
“Mais luz!”

Mãe, perdoa
o meu ressentimento
a que não tenho,
certamente, direito,
pois que me querias
somente
os pés na terra.

Olha, Mãe, às vezes
tens razão
e a vida é mesmo
um vale de lágrimas
Mas só às vezes
pois tendo escolhido a alegria
de meu pai
“mais profunda que a dor’
encontrei, Mãe, a bela senda
no Inferno
e caminho sempre que posso
sobre pétalas frescas...

Tu sabes, Mãe
que não minto
e nada deploro
principalmente...
e agradeço o afã
que demonstravas
em vão
de ancorar-me no real.

No real,
que tu pensavas ser o único...

Perdoa, mãe
Tu fostes para mim
um problema.
E os problemas
incitam
e ensejam soluções

E agora, de onde estiveres,
se ainda me vigias,
me vês
eternamente rebelada
contra o mesquinho cotidiano
a paleta e o pincel
em punho
e cercada de tanto papel
rabiscado.

Perdoa, pois,
minha Mãe morta
Tu foste para mim
um problema...

sábado, 8 de setembro de 2007

O Circo (de Alma Welt)


Capa do folheto O Circo com desenho de Guilherme de Faria, pubicado dentro do Kit Poemas da Alma pelas "Edições do Pavão Misterioso".


A Lona
1
Imensa tenda armada
em torno de um grande mastro
mais bela
se em frangalhos
mas depressa remendada
como colcha de retalhos
como estrelas, como astro
capturado na teia
de uma seara encantada
que vamos plantar à meia
e fará de todos nós
como num sonho desperto
crianças sob o luar
de um certo
Pierrô lunar


A Banda
2
Pequena fanfarra mística
onde pistão e tambores
merecem nossos louvores
acima dos violinos
das flautas de toques finos
e de certos requintes
daqueles outros ouvintes
de tão outro parecer
que fomos (sem perceber)
antes de a lona adentrar
antes de ao rito ceder


O Mestre de Cerimônias
3
Cartola de chaminé
um pouco mais alta até
bigodes que se reviram
e um pontudo cavanhaque
casaca, botas, colete
e (opcional) uma pança
que é sinal de liderança
(apenas como lembrete
haja visto Napoleão)
mas sobretudo um chicote
e sobretudo um anão
pra lhe servir de mascote
Eis o mestre:
um maestro
não da banda
mas do resto


O Palhaço
4
Se disse
que o palhaço
é triste
Seu nariz
em riste
vermelho
é um espelho
do bêbado
em nós
agora
outrora
ou após


A Trapezista
5
Como dourado cometa
de formação exemplar
flutua sobre o planeta
convocando nosso olhar
todo pro mesmo lugar:
o de sua aparição
quase a mesma sedução
e milagre pouco aquém
da estrela de Belém
daquela antiga Judéia
mas num certo vai-e-vem
que move a nossa pupila
desde o fundo da platéia
até a primeira fila




A amazona- desenho a pincel e nanquim de Guilherme de Faria, ilustração para o poema homônimo de O Circo, de Alma Welt.

A Amazona
6
misto de bailarina
e aventureira
fascina
e certamente comove
o jeito
com que se move
no galope sincopado
do branco cavalo alado
em que dela são as asas
de um vôo insuspeito
não sobre as nossas casas
enquanto na arena corre
ou sobre a nossa cidade
mas que ocorre
na verdade
dentro do nosso peito


A Dançarina de Corda
7
malabares
de si mesma
paira sobre nossos ares
prendendo a respiração
a nossa
que não a dela
pois mesmo sem rede
ou fivela
ela nem mesmo ofega
tal a concentração
proporcional à entrega
sem truques e sem tramóia
que produz essa jóia
de equilíbrio
e sedução


O Mágico
8
Mágico já diz tudo
antes da aparição
da sua capa de veludo
Esperamos da cartola
pouco mais que a perfeição
de um coelho
ou de um pato
espelho
do espalhafato
que reflete
o nosso anseio
dessa doce incoerência
dentro do nosso seio
de nossa necessidade
da diária ocorrência
de um milagre perfeito
que seja no nosso peito
senão na nossa cidade


O Domador

9
O domador
é a mensagem
de um equilíbrio precário
entre o humano
e o selvagem
Basta um pequeno temor
ou o mais leve tremor
para o castelo de cartas
construído
no tambor
desabar ou ceder
e num instante de horror
o bravo leão
nos comer


O Homem do prato chinês

10
pensar na frágil destreza
do prato sobre uma vara
e não pousado na mesa
que é a única variável
por si só pouco provável
(pois nada nos leva a crer
que hoje vamos comer)
é mais uma prova de vida
(que tudo pode ocorrer)
e se a nossa comida
acaso ficarmos sem
ainda resta a solução
na verdade um pouco zen
de colocarmos o prato
girando como um pião
de um modo caricato
acima do nosso chão

Os anões
11
Que circo terá senões
se não faltarem
anões?
Nossa necessidade
de referência e acuidade
da pretensa proporção
que atribuímos a nós
ficaria desfalcada
ou faltaria um pedaço
do retrato de palhaço
dessa nossa humanidade
Mas se eu parar
um pouco
mesmo durante o espetáculo
pra meditar
quanto ao fato
da existência incrível
dos anões entre nós
e não só sob a lona
que o coração desafia
largo a filosofia
e posso ficar chorona


Índio que estala o chicote

12
Um índio pele vermelha
mesmo de olhos azuis
mais que depressa conduz
(enquanto estala o chicote)
meu pensamento pra a sorte
de toda a sua tribo
que não tinha o tal chicote
e que mui provavelmente
vivia debaixo dele
por causa de sua pele
Mas quando acende um charuto
pra fazer os anéis
mesmo com tanta graça
quase inverte os papéis
fazendo-me recordar
a grande vingança da raça
ao branco ensinando a fumar


O Atirador de facas

13
Vestido de prateado
como as facas
do seu fado
parece saber ao certo
tiro, meta e resultado
pois com tanta segurança
mantém sua aliança
com um destino contado
já que a moça, seja ela
bela princesa ou plebéia
trazida de sua cama
ou colhida na platéia
é que está na corda bamba
ou sofrendo leves choques
sob a espada de Damócles



O Homem Forte
14
Ninguém menciona do atleta
todo o prévio treinamento
barra, musculação
e todo aquele desgaste
mas somente a aparição
formidável, e o contraste
com a nossa condição
de simples mortais aos pares
já que tanto precisamos
do poderoso Ares
ou de um belo e forte Aquiles
de perfeitos calcanhares
para nos dar a medida
do sonho antigo do herói
que em nossa memória
ainda dói
quando pensamos na vida

O Engolidor de Fogo
15
Zeloso do seu esôfago
falsa rima de pirófago
o homem que engole fogo
quase sempre nos faz crer
o fogo dele verter
de um doce dragão possesso
que mesmo sendo imponente
faz mais pensar em pimenta
quando a gente condimenta
nossa comida em excesso
Mas pondo de lado a razão
ou mesmo o sonho ancestral
que belo, que magistral
o fogo que deve vir
do fundo do coração!