terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DOZE CANÇÕES DA LUA (de Alma Welt)

Leitos da Lua (de Alma Welt)

(13)

Pelos pagos planos do meu pampa
Ia a lua vagando em vaga via,
Feitora das marés em sua rampa

Mas, ai! aí eu ia ao seu apelo,
Levitada de meu leito de guria
Para banhar-me à luz do seu desvelo

E, pura, pelos prados do prazer
Eu pulava por planura e pouco chão,
Já prestes a pelar pra a lua ver...

E foi assim que minha mãe, a Açoriana,
Depois de procurar-me, não em vão,
Notou-me nua em nívea névoa, ó lua hermana!


(sem data)


Notas da editora

Por curiosidade revelarei aqui dois tercetos que finalizariam o poema, mas que a Alma riscou, excluiu, pela sua extraordinária sabedoria técnica que sabia sempre quando um poema estava terminado, evitando o demasiado circunstancial:

"E me pegando pelo punho me puxou
Arrastando-me de volta ao casarão,
Brutalmente no banco me botou,

Onde, tímida, tremendo, torturada,
Fui resgatada por guri, sim, o irmão!
Que lívida levou-me e... fui amada."



Com esse curioso e encantador poema, cheio de aliterações, dou por terminada a minha pesquisa e alinhavo do que convencionei chamar Canções da Lua, da Alma. Naturalmente é possível que outros poemas da grande poetisa se encaixem nessa denominação ou gênero, e que eu ainda os descubra na incrível montanha de textos de minha irmã, em que estou embrenhada. Mas por ora, com estes doze podemos, eu e o querido João Roquer (da Banda Risses) pensar em musicar e criar um CD, para o qual já encomendei a capa e o encarte ao mestre Guilherme de Faria, que os amou. (Lucia Welt)


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Pelos Caminhos da Noite (de Alma Welt)

12

Pelos caminhos da noite
que já conheço tão bem
sem que tema nem me afoite
caminho como ninguém

O poema é meu guia
e a lua farol brilhante
Meu corpo é a cotovia
que por sua luz se adiante

Ah! minha lua faroleira
que giras sobre este mar
que só tem sua fronteira
se mil porteiras fechar

Navego por entre coxilhas
como as ondas desse mar
Ah! encantadas ilhas
do meu doido navegar!

Lua, lua me carregue
já começo a me alçar
Estou nua estou entregue
ao teu fio de enredar

és a aranha da noite
em tua teia estelar...


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A Barca da lua
(dos Sonetos Pampianos da Alma)

(11)

Lua do meu pampa, remadora
Que me chamas nas noites de verão
Pela minha janela tentadora
Por onde fujo descendo até o chão

Pelos galhos da minha amoreira
Que plantei, criança muito esperta
Pois já tramava escapar de minha coberta
E vagar pelo jardim qual feiticeira

Co'a varinha acendendo os pirilampos,
Brincando com os sonhos e a magia
Que sempre habitaram nestes campos.

Lua, promete, me arrebate
Ao olho fatal que, sei, me espia,
E conduze-me em teu barco ao Grande Vate!


11/01/2007


Nota da editora


A rigor este lindo soneto recém-encontrado pertence aos sonetos Pampianos da Alma, mas pela temática resolvi publicá-lo aqui embora haja nos Pampianos muitos outros também com a temática da lua. (Lucia Welt)

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