quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Aos jovens poetas (de Alma Welt)

Aos jovens poetas (de Alma Welt)

Não digas, ó poeta: “eu sou um rio”,
Ou pior ainda “eu sou o mar”.
Não porque isto seja desvairio,
Não vês que isso não é senão vulgar?

Não digas “meu abraço abarca o mundo”
Ou ainda “a sintaxe do amor...”
Isso dói, é feio, quase imundo,
Ou no mínimo tem cheiro de bolor.

Não digas “despi-me dos meus gestos”
Mas, sim, sem pudores tira a roupa,
Pois que a poesia tem momentos indigestos
Mas aos falsos e hipócritas não poupa.

Sim, porque o que jogas no papel
Ao teu rosto voltará, como no vento
A cuspida que deste assim ao léu,
Pois a letra grava o vão momento.

E assim, se for legítimo o tempero
Não precisas mais te preocupar
Pois não foram colhidos no pomar
Do vizinho o pomo e o desespero.

(sem data)

terça-feira, 8 de abril de 2008

À derradeira amante ( para Andrea, de Alma Welt )

Foi na grande cidade,
Andrea
que te encontrei
sem jamais ver-te,
que te quero ver.
Estás longe,
estás só como eu,
aqui no casarão
entre as minhas flores,
as árvores do meu pomar,
e a pradaria.

Minha macieira, meu bosque,
minhas crianças
adoradas, Andrea,
não mais logram
abrandar esta solidão
que é tua.

És a última, querida,
a saberes de mim
com intimidade e doçura,
com ardor também
e fome,
como nenhuma outra
jamais.

Dou-me a ti, toma-me, sou tua,
que te escolhi
(em princípio
nem eu mesma sei ao certo
o porquê...) e me amaste
poderosamente

Devora-me, guria,
virtualmente que seja,
para que eu viva
mais intensamente
que nunca!

Que eu me projete
na tua doce alma
como nestas árvores,
flores, campos
e mais perdure!

Que assim vivi neste meu pampa...



09/01/2006

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Poente branco (de Alma Welt)

Ao deitar-se o sol sobre o meu Pampa
No suave leito das coxilhas
Demora o meu olhar descendo a rampa,
Retorna ao berço destas maravilhas,
Eterna moradia da esperança
A casa onde fui... e sou criança.

Para aqui regresso no crepúsculo,
Intencionada a sentar-me na varanda,
Ladeada por um lindo ser minúsculo:
A Branquinha que ao meu lado anda,
Retornada ao lar em sua alma branda.

Assim é que descubro o elo franco,
Maior, entre mim e ti, amor,
O signo do meu corpo assim tão branco,
Repousado junto a ti... e a se pôr.

AMANTES ( poema de Alma Welt)

CARTA DA LUCIA À ANDREA ( à guisa de Prólogo)

Querida Andréa

Espero que estejas bem. Quanto a mim, continuo organizando os papéis da Alma, sua obra abundante e surpreendente. Acabo de descobrir mais um poema da irmãzinha, que me parece muito belo ( embora eu não entenda de poesia) e em que descobri mais um acróstico do teu nome, Andrea, nos primeiros versos. Parece-me, por alguns indícios(anotações à margem, com esferogáfica) que ela, por alguma razão não o remeteu a ti. Estas coisas me surpreendem, e encantam, por perceber a intensidade do amor de minha irmã. Eu sempre a invejei (no bom sentido) por ela viver assim, como uma diva, uma personagem de ópera, ou heroína de um romance, que afinal, era o dela própria. Nunca poderemos compreender os poetas totalmente, embora suas criações nos digam respeito, ou mesmo nos elevem. A ardência prodigiosa de suas paixões nos tiram o fôlego. Em sua pele, morreríamos no primeiro dia, exaustos, quero dizer, nós simples mortais. Pois a sua dor, junto com seu êxtase, Andrea, é quase insuportável, e me faz chorar pela minha irmãzinha, poeta que um dia o mundo conhecerá em sua grandeza, para sonhar, e...sofrer com ela, que precisava do mundo como sua platéia, legítimo direito dos artista universais, como ela parece ser. Remeto-lhe agora esse poema, que é teu. Quem sabe se ainda encontrarei outros. Alma parece inesgotável em cada filão seu...


Amantes

(Alma Welt)

Amantes, amantes, eis o jogo,
no amplo espaço de minha mente
durante o atemporal percurso do poema,
repositório de gozos e segredos
e as doces lembranças do meu leito
amarfanhado pelos corpos e suores.

Por aqui passaram meus amores
inigualáveis e ávidos de mim,
loucos de minha carne, de meu hálito,
amantes sábias de mim, de meus delírios,
roubadas que me foram pelo Tempo.

(Tu sabes meu amor, já me conheces
sem jamais ver-me face a face
Conheces o meu cheiro
e a cor rosada das aréolas e mucosas
Que te entrego pela voz
inaudível da exímia palavra
plena de sugestão
pelo puro prazer de violar o espaço
e dar-me, dar-me, a ti
aonde quer que estejas solitária).

Mares, mares, eu os conheço
do espaço energético e exato de um retângulo
nas noites profundas de orgasmos
em que me encontro no fundo
de mim mesma.

O que pode, ó deuses, comparar-se
à aventura de dar-se, de entregar-se
ao outro, à outra, sem contrato
sem peias, sem rebuços?
Sem barganhas, sem aquele
pudor dos falsos, dos hipócritas
talvez mesmo dos covardes?

Outrora fui, por bruto violada
e amei, sim, amei-o em pleno estupro
com toda a inocência de minha alma,
malgrado o susto, a dor
e o gozo inesperado.

Amantes, amantes, plenos de imaginação...
Eu me entrego na esperança de perder-me
no coração do outro, em sua carne assim rompendo
as amarras do ser, suas fronteiras, seus liames
da condenação atávica do ser.
Onde o limite? Não quero. Para além
é o que busco, a imensa pradaria do outro,
predestinado, fronteiriço da alma ou não,
um ser de amor e mar, leito de uma noite,
quiçá de uma outra vida, para além das fronteiras
que o homem falsamente impõe.

Não quero regras, só
a feroz senha de doçura,
o milagre dos humores e seivas
que se mesclam,
dos corpos que se fundem
amalgamados.

Esta noite terei todas as noites.
Depois posso morrer.

Aqui, no casarão as trevas sobem,
cessam as luzes, descansam candeeiros.
É a hora mágica dos sonhos acordados,
dos suspiros e mãos hábeis.
A noite dos amantes aqui tem a sua guarida:
receberei a sua imagem recriada por mim
enquanto me penetro
com minhas próprias mãos, meus dedos
minhas receitas, delícias escabrosas,
projetadas de mim, privilégio da mente,
pequenas dores voluptuosas,
lembranças cultivadas
de um estupro ideal...

Tudo é ficção.
Tudo é real?
Qual a fronteira? Não há.
Somos seres de projeção, seres da noite,
feitos para o sonho ardente dos amantes.

Esta noite receberei o meu amor!
Quem poderá deter-nos
em nossos arroubos, mentes desatadas
fontes borbulhantes de desejo?

Nunca soube o real...
Esta noite receberei os meus amores,
bacante de uma orgia, em honra
de mim mesma!



17/12/2005

Meu amor quer claridade (de Alma Welt)

Meu amor quer claridade
extensas pradarias
jardins de sonho
e flores palpáveis
meu amor quer tudo
meus delírios
meus pés firmes
plantados
na terra do seu seio
minhas garras
quer meus beijos
minha sede
ardência de lume
nas noites
do meu pampa
luz bruxuleante
nos corredores
soturnos
do casarão adormecido
crepitar de velas
de antigos serões
candelabros de sonho
taças, vinhos
e a doce embriaguez
de encantos
e celebrações
meu amor quer tudo
tão doce
feroz em sua paixão
ardente, sôfrega
ninfeta e mulher plena
algo fatal
em sua ancas, lábios
na concha quase impúbere
e glabra
entre as virilhas
seio de alabastro
o meu amor
pertence às sagas
mal sabe
o seu mistério
de outras lendas
arena de candura
criação, obra dileta
de terna fantasia

meu amor
pequena deusa
Psiqué
nascida mortal
não sabe
o seu poder


15/06/2005

quarta-feira, 5 de março de 2008

Resvala a noite (de Alma Welt)

Este poema simples e extremamente lírico foi musicado lindamente pelo Gulherme de Faria que o canta ele mesmo e também criou as harmonias e o arranjo que são executados pelo músico Luiz Ramos, do Estúdio Harmony (na rua Augusta) como orquestra de cordas como acompanhamento ao sintetizador. O projeto, no entanto, a ser gravado, é para voz de soprano lírico, como música de câmara.

Resvala
a noite
sobre este dia
glorioso
nada pode
apagá-lo
meu amor
voltou
quero gritar de alegria
o meu amor
nas altas horas
do dia
da noite
do dia


Ergue-se o dia
Em manhã de primavera
ninguém pode colher
as flores do porvir
Somente eu e o meu amor nesta manhã
e o ramalhete
das horas
do dia
da noite...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Orsília (de Alma Welt)

(Este notável e estranho poema foi escrito por Alma quando ela tinha apenas 16 anos, já denotando o seu caráter romântico e um tanto esotérico, dentro da grande tradição do Romantismo Alemão de nossos ancestrais paternos. (Lucia Welt)


ORSILIA

Numa floresta gótica
Jaz, erma e terrível, a lembrança de Orsilia
A mágica luz dos entre-arcos, que nenhum vento distorce
Pousa nalgum lugar de seu corpo, um reflexo de dor.

Suas tranças germinaram, recompondo a dourada face
Nenhuma oscilação afugenta o espírito em seu retorno,
Mas toda a atmosfera submete-se a uma paz ditada pela morte.

O silêncio canta uma balada ancestral.
Nem a névoa estagnada dos pântanos
Nem o petrificado gesto do íbis
Se dispersa ante tão suave angústia.

Orsilia vagueia seu amor translúcido
Seu triste amor, agora isento de recordações
......................................................................
à margem de uma estrada, um vento sofre nas ramadas.


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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Meu perfil (cordel deAlma Welt)

Acabo de encontrar este perfil da Alma, perdido na montanha de seus textos, dentro da arca de sua obra inédita. Este curioso poema narrativo auto-biográfico, que ela classificou de "cordel", me faz crer que ela pensava em abrir seu blog e que não teve tempo. Infelizmente também o poema parece ter ficado inacabado, interrompido... (Lucia Welt)



Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,

Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)

E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço

De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço

Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.

Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros

Que eram de viver solta
Junto de companheiros
Que estavam à minha volta:
Os meus deuses derradeiros,

E o mais belo querubim
Que era Rodo, irmão amado
A quem Ananque, a do Fado
Quis fazer-me amar assim.

Meu pai, a quem chamo Vati
Tomou-me então pra criar
Destinada a ser um Vate,
Pagã, sem jamais pecar.

Para isso resgatou-me
Dos braços da Açoriana
Que me levaria à Santana
E da charrete tirou-me

Pra não me deixar batizar
E nem mesmo ouvir falar
De “pecado original”
Ou outro pecado que tal.

E assim vivi neste prado
No jardim, no casarão,
E no meu pomar sagrado
Da árvore do coração,

Sim, a ARA, macieira
Que gravei com o canivete
Do meu querido pivete
E sua flecha certeira...

E no pomar-paraíso
Sob a árvore sagrada
Fui um dia encontrada
Nuazinha e sem juízo

Por minha mãe furibunda
Que puxando-me os cabelos
E fustigando-me a bunda
Me interrompeu os desvelos...

Pois não estava sozinha
Mas com meu irmãozinho
Sua mão na minha xaninha
E a minha no seu pintinho.

Ai! Me lembro do arrastão,
Por uma fúria arrastada
A cobrir-me com a mão
Que assim fui obrigada.

Bah! pobres destes maninhos
Puxados pelos cabelos
A cobrir-nos, tão sem pelos,
As vergonhas que não tínhamos...


.......................

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DOZE CANÇÕES DA LUA (de Alma Welt)

Leitos da Lua (de Alma Welt)

(13)

Pelos pagos planos do meu pampa
Ia a lua vagando em vaga via,
Feitora das marés em sua rampa

Mas, ai! aí eu ia ao seu apelo,
Levitada de meu leito de guria
Para banhar-me à luz do seu desvelo

E, pura, pelos prados do prazer
Eu pulava por planura e pouco chão,
Já prestes a pelar pra a lua ver...

E foi assim que minha mãe, a Açoriana,
Depois de procurar-me, não em vão,
Notou-me nua em nívea névoa, ó lua hermana!


(sem data)


Notas da editora

Por curiosidade revelarei aqui dois tercetos que finalizariam o poema, mas que a Alma riscou, excluiu, pela sua extraordinária sabedoria técnica que sabia sempre quando um poema estava terminado, evitando o demasiado circunstancial:

"E me pegando pelo punho me puxou
Arrastando-me de volta ao casarão,
Brutalmente no banco me botou,

Onde, tímida, tremendo, torturada,
Fui resgatada por guri, sim, o irmão!
Que lívida levou-me e... fui amada."



Com esse curioso e encantador poema, cheio de aliterações, dou por terminada a minha pesquisa e alinhavo do que convencionei chamar Canções da Lua, da Alma. Naturalmente é possível que outros poemas da grande poetisa se encaixem nessa denominação ou gênero, e que eu ainda os descubra na incrível montanha de textos de minha irmã, em que estou embrenhada. Mas por ora, com estes doze podemos, eu e o querido João Roquer (da Banda Risses) pensar em musicar e criar um CD, para o qual já encomendei a capa e o encarte ao mestre Guilherme de Faria, que os amou. (Lucia Welt)


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Pelos Caminhos da Noite (de Alma Welt)

12

Pelos caminhos da noite
que já conheço tão bem
sem que tema nem me afoite
caminho como ninguém

O poema é meu guia
e a lua farol brilhante
Meu corpo é a cotovia
que por sua luz se adiante

Ah! minha lua faroleira
que giras sobre este mar
que só tem sua fronteira
se mil porteiras fechar

Navego por entre coxilhas
como as ondas desse mar
Ah! encantadas ilhas
do meu doido navegar!

Lua, lua me carregue
já começo a me alçar
Estou nua estou entregue
ao teu fio de enredar

és a aranha da noite
em tua teia estelar...


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A Barca da lua
(dos Sonetos Pampianos da Alma)

(11)

Lua do meu pampa, remadora
Que me chamas nas noites de verão
Pela minha janela tentadora
Por onde fujo descendo até o chão

Pelos galhos da minha amoreira
Que plantei, criança muito esperta
Pois já tramava escapar de minha coberta
E vagar pelo jardim qual feiticeira

Co'a varinha acendendo os pirilampos,
Brincando com os sonhos e a magia
Que sempre habitaram nestes campos.

Lua, promete, me arrebate
Ao olho fatal que, sei, me espia,
E conduze-me em teu barco ao Grande Vate!


11/01/2007


Nota da editora


A rigor este lindo soneto recém-encontrado pertence aos sonetos Pampianos da Alma, mas pela temática resolvi publicá-lo aqui embora haja nos Pampianos muitos outros também com a temática da lua. (Lucia Welt)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Lua de seresta (de Alma Welt)

(10)

Seresteira irmã da Alma
que me fazes acordar
após um sono sem calma
que permitiu te escutar,

Lua, lua, só me resta
ir vagando ao teu encontro
para ouvir tua seresta
a que respondi de pronto.

Meu balcão é a varanda
sobre teu jardim lunado
recendendo à lavanda
do jasmineiro acordado

E logo assisto ao desfile
dos luzeiros encantados
dos pirilampos do Chile,
que assim os quis rimados...

E então me ponho nua
pois não posso me esconder
do olhar arco-de-pua
com que verrumas meu ser.

Depois deitada entre as flores
afasto meus brancos membros
para que vejas as cores
dos dias de teus setembros.

Mas, ai! comicha-me a gruta
um travesso vagalume
e fujo como uma truta
pro meu leito de costume.

Lua nova, aqui me deixes,
não me faças te buscar!
Teus cantos de rio e mar
alvoroçaram-me os peixes...


(sem data)

Vigílias pampeiras (de Alma Welt)

(9)
Quando cai a lua cheia
sobre alfombras de coxilhas
um canto de plena veia
percorre o Pampa por milhas

E vemos os fogos no chão
com as chaleiras que chiam
fervendo pro chimarrão
dos "gáltchos" que silenciam

para ouvir cantos de lua
ao som de foles gaudérios
com estórias de mistérios
de uma estranha prenda nua

que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como o rastro de um açoite
nessa vigília pampeira.

Já sabem usteds quem é
essa china impenitente
que chega a sorrir até
ouvindo o que diz a gente?

Voem cantos, chie o mate...
Olhar, comece a vigia!
Esta noite cante o vate
as façanhas da guria!

Que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como rastros de um açoite
na grande noite pampeira.

(sem data)

Nota da editora

Nos últimos tempos recrudeceu o hábito da Alma de sair tarde da noite cavalgando nua e em pelo a sua égua Miranda pelas pradarias até longe do casarão. Isso aumentou a sua lenda entre os peões aqui na nossa região.
Uma noite, Matilde, nossa cosinheira e sua ex-babá, que percebeu o que acontecia, conseguiu impedi-la amarrando-a na cama. Ela achava que Alma estava louca. Confesso que não a desamarrei e fiquei à sua cabeceira acalentando-a, até que cessou de se debater e adormeceu.

Teia lunar (de Alma Welt)

(8)

Pequena lua impassível
que de noite vens me olhar
com teu brilho impossível
de a ti mesma revelar

Que me dizes, o que quer
teu branco olho lunar?
Teu silêncio me requer
desfazer-me em meu tear?

Levanto-me branca e nua
no meu sonho recorrente
e vou andar pela rua
como uma pobre demente

Até retornar ao leito
vaga, sonada e lenta
trazendo uma flor no peito,
na boca um sabor de menta.

Sob os lençóis macios
me deito já desfrutada
como esses seres vadios
de tua louca noitada

E durmo com minhas mãos
que desfizeram a teia,
repousando entre os vãos
que o teu olhar incendeia.


(sem data)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A alucinada ( das Canções da Lua, de Alma Welt)

(7)
Pelas margens do meu rio
irei nas noites de lua
entre o sonho e o delírio
por esta espécie de rua

que me leva a este nada
perfeito, noturno e claro
onde encontrarei a amada
e seu canto muito raro.

Lua, lua aí vem ela
envolta em tua aura
azulada que até gela
mas que tão logo restaura

a sua feição bonita
em risos de alucinada
que entre cantares grita
o seu amor, pela estrada

que me leva a esta amada
perfeita, noturna e clara...


(sem data)

Lua cigana (de Alma Welt)

(6)
Minha cigana vem vindo
no seu carroção da noite
buscar-me para um pernoite
que já me vejo fruindo.

Lua, lua cigana
começo a ouvir o teu canto
e ainda não sei o quanto
estás perto desta "hermana".

Voarei se me quiseres
nas asas do teu luar
por suas trilhas no ar
em campos de mal-me-queres.

E quando enfim começar
o fandango de rabecas
tuas ciganas sapecas
me verão também bailar.

(sem data)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Canção da noite de lua (de Alma Welt)

Mais uma "Canção de Lua" descoberta entre a imensa produção da Alma, ainda inédita, encontrada em sua arca... (Lucia Welt)

(5)

Pela campina anoitada
minha lua está a vagar
lançando apelos na estrada.

Te quero, lua, e irei
contigo esta noite deitar,
que já não tenho mais lei.

Me porei nua nos prados
pra me causares marés,
pra me lunar dos dois lados.

Branca como uma fada
me deitarei aos teus pés,
a ti serei consagrada.

E quando fores de dia
pro teu refúgio secreto,
me farei tua cotovia:

Voltarei cantando ao lar
contar ao irmão dileto
que longe fui namorar...

(sem data)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Canção da bela lunada (de Alma Welt)

Mais uma Canção de Lua encontrada entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

(4)

Lua noturna amazona,
por quem me tomas minha lua?
Não sou chinoca de zona
por me veres assim nua.

Teimas em me desnudar
Ah! Como somos tão brancas!
Com o pálido nenúfar
a boiar-nos entre as ancas.

Se me deito como em parto
é porque sou tua amante.
Se permaneço em meu quarto
é por seres inconstante.

Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio.
Sou bela... não tive escolha.

Esta noite irei ao prado
e te abrirei o meu seio
para que seja encontrado
lunado, frio e alheio


Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio...


(sem data)

Lua de "ménage" (de Alma Welt )

Mais uma "Canção da Lua" que encontrei entre os papéis da Alma... (Lucia Welt)

(3)

Pelos prados de coxilhas
me verás cantar à lua
qual fosse senda diurna
do meu jardim, pelas trilhas.

Que podes senão seguir-me
com teu fino violão
e tentares perseguir-me
na minha bela canção?

Seremos um sob a lua,
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua

Até deixarei tocar-me
sob seus claros lumes
para à lua fazer charme
e provocar-lhe ciúmes

........................

Seremos um sob a lua
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua...



(sem data)


Nota da editora:

O fato de de Alma ter repetido a penúltima quadra no final, como um refrão, confirma, a meu ver, a sua visão deste poema como uma canção para ser musicada mesmo. Musical como ela era, é uma lástima que ela não tenha tido tempo em sua vida para musicar seus próprios poemas e cantá-los. Mas onde estiver, creio que ficará satisfeita com as melodia que o jovem João Roquer, e a bela Lika, ambos da Banda Risses, estão colocando em seus poemas. João já prometeu musicar todas as "Canções da Lua" da Alma que lhe inspirarem melodias e harmonias.

O acordo (de Alma Welt)

Encontrei, maravilhada, uma série característica de poemas da Alma dispersos no meio de sua vasta obra na arca de nosso sótão, que alinhavados formam o que passarei a chamar "Canções da Lua". O querido João Roquer, da banda Risses, já prometeu musicá-los.(Lucia Welt)

(2)
O acordo (de Alma Welt)

Por estes prados de mar
Me avistaste num clarão
Em meu louco navegar
Me olhavas do teu balcão

Não te cansas de chamar
Qual se ainda fosse tua
E não vagasse no ar
E não estivesse nua

Mas o quê sabes de mim
Na minha eterna aventura?
Vou atrás da minha lua
Nada podes com algo assim

Lembra do acordo, não jura,
Feito no nosso jardim...


08/11/2006

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Lua de Yupanqui (de Alma Welt)

Surpresa e encantada encontrei este lindo poema inédito da Alma em sua arca, no nosso sótão. Já me parece uma canção, pois canta desde já pedindo ser musicada. Conclamo aqui o querido João Roquer (da banda Risses) a fazê-lo. João, porás melodia nesta canção? Tu a cantarás? Te peço... (Lucia Welt)

Também a ti cantarei
pois cantar, lua, não manque
quem te pudera cantar
depois do "gáltcho" Yupanqui*
quem te soubera encontrar
em meio a névoas de sangue
de tanto tanto buscar
em caminhadas de mangue,
as tuas sendas no ar

Lua dos amantes cegos
e dos tais impenitentes
que não te podem mirar,
Dos incautos, dos valentes
que se dispõem a sonhar

Lua lua aqui me vês
perdida como uma rês
que a si se quis apartar

Leva-me em tua barca
não me deixe aqui restar
esquecida de tua arca
de par em par, no afã
de teu lento naufragar,

Que sou pequena, sou órfã,
também já não tenho lar...

(Alma Welt)

Nota de editora

*Yupanqui- Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, célebre, da província de Tucumán, autor de inúmeras canções imortais como a celebrada Luna Tucumana, que se tornou praticamente folklórica, uma das canções pampianas mais amadas pelos argentinos. Alma adorava essa música e a cantava lindamente acompanhando-se ao violão. A voz de Alma era belíssima, indescritível, e sua pronúncia castelhana, perfeita. Ainda a ouço na memória, e choro ao me lembrar... (Lucia Welt)

Para ouvir a canção Luna Tucumana, em belíssima interpretação:

http://br.youtube.com/watch?v=WXdoZyciqNQ

sábado, 26 de janeiro de 2008

A meu pai, Werner Friedrich Welt (de Alma Welt)

Vati*,
não morri contigo
embora a dor
quase me tenha solapado.

Estavas inteiro em mim, pai,
já me tinhas
ensinado quase tudo.
Deixaste-me teus livros
e algumas boas telas...
E a música, então, Vati?
Estava tudo lá...
Os três grandes Bês
como dizias:
Bach, Beethoven e Brahms
e todo o panteão de deuses
grandes e pequenos.

Mas, pai, não me tinhas
falado da morte,
isso esqueceste.

Não quiseste
ou não tiveste tempo
de me falares desses mortos,
juntos, talvez, à alguma lápide,
no campo, ouvindo os pássaros
ou confidencias do vento
nos ciprestes.
Teria sido tão belo e triste...

Vati, não me preparaste
para a Morte
e agora tenho medo.
O mundo que me deste
é belo demais
e temo perdê-lo,
mais que nunca.

Vê, Vati, estou pintando
e escrevendo ainda
os versos, pai, os versos
que me incitavas
para escândalo
ou preocupação
da Mutter.
Persisto, pois,
na nossa loucura, Vati,
naquele pacto que fiz nos teus joelhos
e que só nos dois sabemos.
Lanço agora, mais que nunca
nossa beleza querida
na tela
e no papel
e estou, Vati, portanto
cumprindo o nosso pacto.

Podes dormir, pois
sossegado,
velho médico, estancieiro,
sonhador,
pai desta Alma aqui,
apaixonada por homens,
e mulheres
mas que ainda é tua
criatura
e criadora orgulhosa
de nós, Vati.

Podes dormir naquele prado
onde não fomos juntos,
onde não ouvi os pássaros
e não sussurramos
rente às lápides.

Quiseste mostrar-me só a alegria
da beleza
e suspeitavas que a morte
não fazia parte dela,
agora vejo.

Tanto
que a Mutter tentou
nos prevenir
com sua catilinária
e aquele indefectível
“vale de lágrimas”!...

Mas, Vati, de onde estás,
ouves An Freude
a Ode à Alegria?
Há um reino de sombras, pai,
atravessado por aquele rio Letes
do esquecimento?

Bebeste de sua água?
Esqueceste-me, Vati?

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Nota de editora

A paixão de Alma por nosso pai nos comovia, a mim e a Rodo
(menos à Solange, que tinha ciúmes). Aliás tudo na Alma era tão intenso que nos paralisava, ou nos tirava o fôlego. Por isso ela viveu a sua curta vida como se fossem cem anos de vivências. (Lucia Welt)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Narcísicas (de Alma Welt)

NARCÍSICAS
(Poemas Sáficos de Alma Welt)



1

Cerco meu dia
de flores e canções
e aquele zelo
da hetaera ancestral
que vejo em mim
Banho-me enfim
na espuma que me envolve
e olhando-me no espelho
me desvelo
enquanto o cristal
só me devolve
aquilo
que a mim mesma
me revelo


2

levanta ó meu amor
o teu sorriso
deste leito sobre o dia
e suas sombras
percorre com teu passo
estas alfombras
e como eu
( se assim posso dizer )
reina o que é teu
com todo o teu poder
Se tens a veleidade
da renúncia
lembra então de Lear
que a razão, o reino
e o coração, perdeu


3

Como me alegro com o dia
que amanhece
e mesmo quando à tarde
ele se funde
pois que sou grata
pelas dádivas que fruo
o meu destino é belo
e mais ainda
porque assim o reconheço
ou o construo



4

A minha amiga é bela
e se desvela
de tal maneira
em torno desta vela
que sou, já que a atraio
sem querer
que temo até mesmo
que se queime
em mim
que estou ardendo
(não me pejo)
só de pensar também
o seu desejo


5

Vem, minha amada
e deita sobre mim
mirando teus mamilos
sobre os meus
desce assim assim
devagarinho
como Narciso sobre
o seu reflexo
até molharmos
nossos corpos num amplexo
que nos confunda
talvez
no mesmo espelho



6

Para cantar, pintar
ou escrever
lanço mão do prazer
ao meu alcance
mas nada se compara
ao maior lance
que faço
ao deixar-me pertencer



7

Minha amada me encanta
ao caminhar fluindo assim
sem hesitar
Que pés, que mãos
enfim, que perfeição
nascida com a função
de apaixonar
E eu, que outro tanto
me sei bela
posso entãoprostrar-me
diante dela
sem receio e orgulhosa
de assim tanto a venerar



8

Deita-te aqui
ó minha linda
e fica imóvel
enquanto a tarde finda
Deixa-me somente percorrer ainda
o teu perfil à contra-luz
e os teus seios
que em silhueta também sei-os
tão perfeitos
Deixa então
que minha mão resvale agora
tuas curvas, tão de leve
e tão suave
como roçam os minutos
sua hora



9

Ouço a voz do meu amor
que chega pelo elevador
e penso nessa voz
em como é linda
e como a conheço
tão de cor
Depois abro-lhe a porta
e ela me invade
por todos os sentidos
à vontade
pois sabe-me a volúpia
de servi-la
como a metade
serve
outra metade


10

Olhe Aline
espero a sua chegada
pondoa casa toda preparada
o leito perfumado levemente
e as minhas telas
cercando o ambiente

Você já sabe
como vou literalmente
devorá-la
como faço em minha mente

Quando chegar não quererei
nem conversar
me atirarei sobre o seu seio
e em seguida
vou ficar talvez mais atrevida

Só de pensar
eu tremo de emoção
e do vago receio que me possa
por capricho ou por orgulho
rejeitar


11

O meu prazer com meu amor
me é sagrado
e faz parte
de um conjunto ampliado
de amores e visão engrandecida
do que é Gente
do que é Arte
e do que é Vida
Procuro a alegria
(já se vê )
mas não renego a dor
quando fecunda
emanada do amor e sua procura
sua perda ou sua morte
tão profunda



12

Quando penso
nos amores que vivi
percebo que com eles
construi
com muita calma
o edifício verdadeiro
desta alma
como vigas, tijolos
e argamassa
e por fim a superfície
bem caiada
ostentando a minha face
na fachada



13

Vou te esperar
Aline
nesta noite
e pra isso me preparo
como noiva
um banho quente
para um pouco amolecer-me
e pôr-me lânguida
afim de receber-te
Este meu delírio de odalisca
me faz sorrir
e o desejo me belisca
Em minha mente construí
meu próprio harém
onde encerro o meu amor
e a mim também


14

Olha, Aline
não estou triste
estou furiosa
eu te vi nua
gloriosa
em viris braços e era tarde:
ele em riste
eu curiosa, tão covarde
Era um sonho
portanto era verdade
eu olhava e gemia
em tua delícia
Percebia
o membro que adentrava
e com ele
o meu desejo
que aumentado
pôs-me agora
o coração meio nublado



15

Meu amor e meu tesão
ó minha Aline
durará enquanto
deles eu fruir
sem possessão
pois
quando rondo à noite
sem temores
tua cama, aurindo
teus odores
sem a sombra dos ciúmes
me inebrio
com a mistura que percebo
de perfumes



16

Percebo, Aline
que um dia vou perder-te
por culpa desta mesma
solidão que faz-me amar-te
Cortejar tua beleza
só faz parte
desse mesmo ritual
de contemplar-te
sempre e sempre
ao espelho desta arte
de amar meu próprio amor
em seu contraste



17

Podes deitar-te, Aline
com quem queiras
se te deres assim tão generosa
Se estás comigo por beleza
talento ou fama(coisa honrosa)
continuo a querer-te, minha jovem
interesses assim
só me comovem



18

Sim, Aline
sou romântica
e percorro
as ruas em morro
deste bairro tão diurno
passeando a solidão
lago noturno
sob a lua
de um céu estrelado
como um véu entre montanhas
ou ainda à margem
de um regato
noutro tempo mais ameno
e mais pacato


19

Beijo-te os lábios
amor
até o sangue
e quase o fôlego roubar-te
Como posso conter-me
e não beijar-te
sem demora
olhando tua boca
obra de arte?
A perfeição existe
e mora aqui
um tanto em ti
um pouco
em mim
Como isso é louco!


20

Se amares alguém
mais do que a mim
aí sim, Aline
vou sofrer
não do medo de perder-te
mas da perda já sofrida
pois que fui na tua balança
interna, excluída
por um peso maior
que a minha vida


21

Quero gritar ao mundo
o meu desejo
pois que igual ao meu amor
assim o vejo
em meu espelho
tão ardente e escabroso
como a arte
amor e gozo
em toda parte

FIM

09/02/2001

terça-feira, 8 de janeiro de 2008


A banda Risses apresentará de novo o seu maravilhoso show, o dia 12 de Janeiro de 2008, lá no clube Caiubi, no Vila Teodoro, na Teodoro Sampaio 1229. Entrada Cr$5,00.

ESTE POEMA DA ALMA WELT FOI MUSICADO pelo vocalista da banda RISSES, JOÃO ROQUER, e abre o show TERRA DESCONHECIDA que estreou com grande sucesso no dia 14 de dezembro de 2007 no CLUBE CAIUBI, na RUA TEODORO SAMPAIO 1229- Pinheiros.


QUISERA UM JARDIM


Quisera um jardim
sob um balcão
até onde a vista
encontra
o muro necessário
à mesma vista
repleta como com
a braçada de flores
que então chega
numa manhã qualquer
com um cartão
fugaz
e a escritura
pelo apuro
desfaz
cor e textura
ao próprio muro


ALMA WELT


http://bandarissesterradesconhecida.blogspot.com

Poema digital para Andrea ( de Alma Welt)


Capa do folheto Poemas à Andrea, publcado dentro de um kit pela Edições do Pavão Misterioso

Poema digital para Andrea

( Alma Welt)

Mulher que escreves
teu nome sob doces declarações
e ardentes carícias virtuais
amando um rosto
e um corpo que não viste
e que talvez nem imagines
em teu claro coração,
que prodígios de amor,
que sede encantada, que toques
a pele da alma
desta Alma!
Ouves de longe meus gemidos
como um surdo minuano
soprando forte
não gelado
mas aquecido pelo coração?

Eu te visito à noite
em teu leito solitário,
afasto com cuidado
a triste cachorrinha
(que lentamente se vai),
para deitar-me
trêmula ao teu lado
nua como tu no teu leito
de verão paulistano,
que venho nua do longínquo Sul
e não posso nem quero
carregar roupas sobre mim
em nosso ardente sonho nu
compartilhado.
Esperas-me nas noites
pois sou “a gostosa da Internet”
conforme teus gaiatos colegas de trabalho
e quem sabe
jocosos amigos
carinhosos
que te querem o melhor.

Tudo me deleita.
Como não sorrir para a beleza disto tudo
se o amor continua raro e fomos bafejadas
insolitamente, no doido mundo digital?
Espera-me nas noites
Andrea
Espera-me na pequena tela
que lá estarei nas ardentes noites
de tua insônia molhada
que me ofereces
dadivosa
como eu a ti.

Quem poderá deter-nos
em nosso deitar e rolar
se somos livres como não se pode
imaginar
pois que não há testemunhas possíveis
dos “obcenos detalhes”
salvo um imponderável haker
do futuro
que invada o disco rígido
onde lá, no fundo,
ondulam os discos flexíveis
das nossa colunas vertebrais
no jogo amoroso
eternizado nos circuitos
do grande casarão virtual
da máquina
um dia uma sucata
que conterá nossos segredos.

Comoveremos o mundo
um dia, Andréa,
o mundo digital e virtual
ainda mais futuro
mas que porventura saberá
verter lágrimas
pela beleza...
e pelo infinito gozo do amor .
01/01/2006