segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Pampa (de Alma Welt)


Capa com desenho de Guilherme de Faria do folheto Pampa, publicado pelas "Edições do Pavão Misterioso, dento do Kit Poemas da Alma


Até onde a vista
alcança
eu percorri este pampa
em minha infância
e solitária
primeira juventude

Quantos vôos
quantas cavalgadas
(mesmo as que nunca fiz)
pertencem a esta memória
plena
de campos, árvores
e canções.

Fandango da alma
mate da memória
eu vos saúdo, lembranças
minhas
eternas, deste sul.

Acompanhem-me o passo
vamos em direção à grande árvore
macieira ancestral
onde gravei nossos nomes...)

Rudolf, Rudy
depois Rodolfo, Rôdo
e Alma
assim enlaçados nossos nomes
no profundamente gravado
coração.

Como corria estes campos...
o pampa
que estava ao meu alcance
embora limitado
pela vigilância invisível
de um olhar
internalizado
de que mal me dava conta...
A saia, um tanto comprida
às vezes arrepanhada
para saltar pequenas valas
um avental, eu me lembro
e sapatos absurdos
de verniz
sujos de terra.

Ai, Rôdo, só tu sabias
minhas trilhas
meus segredos
pequenas descobertas
contigo logo compartilhadas
como as tuas
comigo.

Universo mágico do nosso pampa
sombras dos galpões,
feno, ferramentas
e mantas de charque
cercando minha memória...

Peões, peões
ruído estridente de esporas
e surdo
de bombachas
cuias, bombas
o mate
assim correndo
nos lábios e canções.

Homens, machos
grandes costeletas
e bigodes
que me atraiam mais
do que o devido
não obstante o medo
atávico
do bicho homem
ameaçador.

Ai, quanto perigo
despercebido
devo ter corrido!...
Pequena fêmea,
bela, sim
que eu era
cheia de emoção
e de candura...

“Cachos Louros”
me chamavam
a guria do patrão
a chinoquinha
diziam baixo
entre eles
ouvi um dia.

Memória, memória,
sonho, saudade e sonho
perdida para aquela infância
nesta terra de cimento e vidro
feia e terrível
onde me encontro agora
mas sempre
estranhamente atraída,
meu destino...

Ah! pudesse eu voltar
e correr contigo, Rôdo
de mãos dadas
atrás de algum segredo
como de uma borboleta
um potrinho
uma vitela,
sem medo, sem
ameaça
inocentes como no paraíso
antes do fruto
e da serpente;

Reentrar no casarão
avarandado
cercado de flores
como a barba grisalha
depois branca
de meu pai
atraída pelo piano
que tocava
com os dedos delicados
de artista
o velho cirurgião!

Colocar-me debaixo do piano
olhando o movimento
imponderável
de seus pés
nos incompreensíveis
pedais
depois subir
olhar as suas mãos
e os seus olhos
concentrados
que me olhavam então
maliciosos
com uma piscadela cúmplice.

Ah!, Vati,
criaste-me
junto ao teu piano
ao pé das estantes
abarrotadas
dos maravilhosos volumes
que me abrias
nos joelhos
apontando as figuras
Destes-me o mundo
não somente
o pampa.

Como posso
alçar-me,
deixar estas salas
estes quartos, estas varandas,
cercadas destes pampas?

Como posso chegar
verdadeiramente
ao mundo
que me mostravas
nos teus livros
se a saudade
me ancora nesta Infância?

Como distanciar-me
e percorrer o mundo
como me querias
sem nostalgia
e sem a companhia
da indesejada
melancolia
Sem os ecos
dos galpões?

Teu grande piano negro
Vati
me chama ao passado
quando me debruçava
sob ele
com as mãos apoiando
meu queixo
os cotovelos no tapete macio
que ali punhas
somente para mim...


E tua biblioteca, meu pai
que eu imaginava fazer sombra
à de Alexandria
que me contaste ter sido
queimada por um fanático
e na minha alminha perplexa
isso tinha sido
ontem.

Vati, mostra-me novamente
as gravuras de Doré
para a Divina Comédia
assustadoras
e a Bíblia, e o Don Quixote
Pantagruel, Gargantua
O Paraíso Perdido
Vati, que me mostravas
quando eu ainda não alcançava
as estantes
e sucumbiria
ao peso dos volumes.

Vati, como assobiavas bonito
a Aurora de Beethoven
e a Apassionata
e ainda a Élègie de Massenet!...

Como poderei, Vati
distanciar-me?

Espremo os tubos sobre a paleta
lanço estes versos no papel
e as tintas e as palavras me remetem
à nossa estância
que ainda está ali
como um fantasma
navegando
na amplidão do Pampa.

Como uma nave
o casarão batido pelo minuano
recusa-se a afundar!

11/11/2003

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À minha mãe, Ana Morgado Welt (de Alma Welt )


Mãe, perdoa
tu fostes para mim
um problema...
Lembro de ti
e busco na memória
os melhores momentos
e o que sobrou
de ensinamentos...

Ainda tenho os pés na terra,
mãe
graças a ti.
a pontinha, pelo menos,
que sempre quis alçar-me
e tu me deste somente
sapatilhas de balé.

Teus pés tão fincados na terra,
teus conselhos prosaicos
e as sempre presentes advertências
que me fazias
de morrer à mingua na poesia...

Mãe, perdoa.
Como boa burguesa que tu eras
citavas sempre os malditos
que acabaram mal
na pintura
e na sarjeta:
Van Gogh
Gauguin
Modigliani
e alguns poucos outros
(Anima-possuídos
depois eu soube...)

Mas não citavas
os olímpicos
que tiveram os reis
a seus pés:
Picasso, Rivera,
Matisse, Chagall
(Sem contar Dalí, que
este é que se ajoelhou
aos pés de um rei)...

Ou aquele jovem Rafael
que morreu cedo
em glória, chorado pelo Papa
e ainda
o centenário Ticiano
em seu palácio
em Veneza
com o porno-poeta Aretino
como secretário.

Não, Mãe
não citavas o grande Leonardo
que morreu nos braços do rei
de França
proclamando imensa honra.
Tampouco citavas Goethe
morrendo em seu leito
que imagino imenso
cercado de seus amigos
quase tão célebres
quanto ele próprio
e pedindo
“Mais luz!”

Mãe, perdoa
o meu ressentimento
a que não tenho,
certamente, direito,
pois que me querias
somente
os pés na terra.

Olha, Mãe, às vezes
tens razão
e a vida é mesmo
um vale de lágrimas
Mas só às vezes
pois tendo escolhido a alegria
de meu pai
“mais profunda que a dor’
encontrei, Mãe, a bela senda
no Inferno
e caminho sempre que posso
sobre pétalas frescas...

Tu sabes, Mãe
que não minto
e nada deploro
principalmente...
e agradeço o afã
que demonstravas
em vão
de ancorar-me no real.

No real,
que tu pensavas ser o único...

Perdoa, mãe
Tu fostes para mim
um problema.
E os problemas
incitam
e ensejam soluções

E agora, de onde estiveres,
se ainda me vigias,
me vês
eternamente rebelada
contra o mesquinho cotidiano
a paleta e o pincel
em punho
e cercada de tanto papel
rabiscado.

Perdoa, pois,
minha Mãe morta
Tu foste para mim
um problema...

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